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COP-27 tem dois governos do Brasil: Comitiva de Lula sob holofotes e ala da gestão Bolsonaro vazia



Publicado em quarta-feira, novembro 16, 2022 · Comentar 

ENVIADOS ESPECIAIS A SHARM EL-SHEIK – Na Cúpula do Clima (COP-27) em Sharm el-Sheik, no Egito, muitos países estão interessados em falar com o Brasil. Isso não significa, porém, que o governo federal teve de lidar como uma série de convites para reuniões bilaterais ou mesmo com o pavilhão lotado no estande oficial. A expectativa maior não está em torno da gestão Jair Bolsonaro (PL), que está de saída, mas com o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Joaquim Leite, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, fala durante a Cúpula do Clima (COP-27) em Sharm el-Sheik, no Egito. Foto: AP/Peter Dejong

No pavilhão dos Estados da Amazônia Legal a movimentação é intensa e os eventos concorridos. Nesta semana, um painel com o governador do Pará, Helder Barbalho (DB), e o convidado governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), lotou o espaço.

A cerca de dez metros dali, no entanto, está o principal ponto de reunião de brasileiros e estrangeiros interessados em ouvir e discutir o cenário ambiental do País. É no Brazil Climate Hub, espaço da sociedade civil, que nesta semana as ex-ministras do Meio Ambiente em gestões petistas Marina Silva e Izabella Teixeira reuniram mais de uma centena de pessoas espremidas para ouvir sobre as perspectivas ambientais com o novo governo.

Um dia depois, na terça-feira, 15, foi ali também que a futura-primeira dama, Rosângela Silva, a Janja parou para tirar fotos enquanto era seguida por uma pequena multidão pelos corredores. Para quem chegar desinformado, este parece ser o espaço oficial do governo brasileiro.

Joaquim Leite, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, também aproveitou o espaço oficial da conferência para criticar ou alfinetar o governo do sucessor. Disse nesta terça que a política ambiental deve se basear na geração de emprego verde, e não em redução de emissões de gases de efeito estufa “extremamente forçada”. Também atacou o uso de jatinhos, em referência ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e afirmou que o mundo não será salvo pelos “caridosos”. O petista tem sido alvo de críticas por ter feito a viagem a bordo da aeronave de um empresário.

“Filantropos, líderes e empresários e seu sempre exagerado número de assessores vieram em jatos particulares ao luxuoso balneário do Mar Vermelho para cobrar metas de redução de emissões dos outros, sugerindo carros ultramodernos a hidrogênio ou 100% elétricos, completamente desconexos da realidade de diversas regiões do Brasil e do mundo”, criticou Leite, em discurso no evento da ONU.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) negou que o empresário José Seripiere Junior tenha emprestado a aeronave para Lula. “O proprietário está indo junto para COP. Não tem empréstimo. Estão indo juntos no mesmo avião. Estão indo mais pessoas: ex-governador, lideranças políticas, ambientais, todos juntos”, disse Alckmin na segunda-feira, 14.

Durante sua participação na conferência, Leite defendeu foco na renovação da frota global de veículos por versões mais novas e limpas. Segundo ele, as políticas de atenção ao tema – como hidrogênio verde ou carros 100% elétricos – seguem restritas a nações ricas, enquanto países mais pobres – a exemplo do próprio Egito, sede da COP – veem carros muito antigos e poluidores pelas ruas. O discurso, porém, chamou menos atenção diante do interesse menor sobre os projetos do governo que está de saída.

Questionado pelo Estadão sobre a presença novo evento de dois estandes – um do governo federal e outro dos Estados -, Leite disse que são focos distintos. O pavilhão federal evita tratar temas como a Amazônia, espinhoso para a gestão Bolsonaro, diante da escalada do desmatamento nos últimos anos. “Nosso estande é de energias mais verdes; o deles é mais ligado às florestas e aos desafios do consórcio”, justificou. “A relação sempre foi boa e continua sendo boa”, emendou o ministro.

A comitiva dos governadores amazônicos – entre eles nomes de partidos da oposição, como o acreano Gladson Cameli (PP) e o tocantinense Wanderlei Barbosa (Republicanos) – querem aproveitar o evento para pedir investimento e reforço de fiscalização. “Há expectativa de conciliação das ações (de governos federal e estaduais) e de fortalecimento da fiscalização. Seja pelo ICMBio (órgão federal que cuida das unidades de conservação) ou Forças Armadas, é fundamental combater o desmatamento ilegal”, disse o governador paraense Helder Barbalho (MDB), que primeiramente convidou Lula para o evento.

É esperado que a vitória de Lula nas urnas traga mais recursos para a proteção da floresta. Em 2019, o governo federal colocou sob suspeita as parcerias com ONGs firmadas via Fundo Amazônia, programa que recebe doações da Noruega e da Alemanha para preservar o bioma. Diante das críticas e mudanças por parte da gestão Bolsonaro, os europeus interromperam as doações. Na época, a área ambiental era comandada por Ricardo Salles, que saiu do cargo em 2021.

Após a vitória de Lula, os dois países sinalizaram que retomarão os repasses de verba para o fundo. Na COP, o petista e sua comitiva – sobretudo a ex-ministra e deputada federal eleita Marina Silva (Rede) – têm encontrado com autoridades de outros países para costurar novas alianças. Marina é uma das cotadas para assumir a pasta do Meio Ambiente. Ao Estadão, Marina disse que não vão mais operar no campo da “chantagem”, em crítica à postura de Bolsonaro, e afirmou que o “mundo quer investir na Amazônia”.

*O repórter viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade

Da Redação
Com Estadão

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