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Aninha Ferreira escreve para EXPRESSO: Você “pensa” que sabe


Há alguns anos atrás descobri que uma amiga era violentada pelo marido. E essa descoberta só aconteceu porque a vi muito machucada depois de um espancamento que lhe deixou sequelas na pele e ainda mais profundas na alma. Desesperei. Nunca, nem no meu pior pesadelo imaginei que ela vivesse algo parecido. Diante do que sabia sobre a sua vida, jamais cogitei que ela vivesse algo tão terrível com alguém que sempre me pareceu tão gentil e carinhoso. Compreendi algumas atitudes, reações, e me culpei por criticá-la em alguns momentos. Depois disso, abandonei todas as minhas certezas sobre a vida alheia, sobre o coração dos outros. Ah, meu amigo, sobre a vida do vizinho, nós nada sabemos. Afinal, quem conta a verdadeira intimidade?

Conhecemos o que vemos, mas nem sempre o que vemos é o que de fato acontece. Da porta para dentro, cada um sabe o que passa; da porta para fora, cada um conta o que quer. Por trás de algumas palavras e ações, há coisas que não sabemos. Tem muito sorriso escondendo dor, tem muita lágrima fingida. Não é difícil nos surpreendermos com alguns acontecimentos: o casamento que parecia perfeito, acabou. A separação que parecia definitiva, voltou a ser amor. Quem parecia ter tudo, se suicidou. O negócio que parecia ir tão bem, faliu. A amizade de anos que parecia eterna, virou mágoa. Os elos, os acordos, as parcerias que pareciam tão sólidas, se romperam. Pois é, aos nossos olhos tudo apenas parecia ser. É aquela coisa: nós não conhecemos os motivos que levam as pessoas a tomarem determinadas atitudes.

Não é do nada que as coisas acontecem. Para cada decisão existe um motivo, uma justificativa, uma consciência que talvez não seja compreensível para nós, mas faz todo sentido para quem sente na pele. Em tudo há uma história, há porquês que desconhecemos, há verdades, há lados diferentes, há uma vida que talvez seja completamente diferente do que aparenta ser. Somos meros espectadores da vida alheia. Achismos não definem nada. Sabemos apenas o que permitem que saibamos. Se pararmos para refletir, nós mesmos contamos o que queremos, até para nossos melhores amigos, porque temos a nossa intimidade e queremos/precisamos preservá-la; guardamos o que julgamos que ninguém precisa mesmo saber.

A vida do outro não pode ser contada pelas lentes de quem não a conhece verdadeiramente. Muitas vezes somos obrigados a tomar algumas atitudes e ninguém faz ideia de quão árduo foi optar por tal decisão naquele exato momento. Contudo, estamos rodeados de críticos de narizes empinados, falsos sábios, invejosos, desconfiados, que insistem em criticar, julgar e condenar o que nada sabem a respeito. Chegam com seus pontos de vista, seus conselhos, suas experiências de vida e nos dizem o que devemos fazer. Saem por aí destilando seus venenos, seus comentários indevidos pelo que apenas ouviram dizer. A questão maior é que é muito cômodo criticar quando a dor não bate dentro da gente, quando não é na nossa casa, na nossa família, no nosso relacionamento, no nosso trabalho. É muito cômodo resolver o que não lateja, não é?!

Somos mestres em julgar sem conhecer, avaliar sem saber, sem experimentar. Criticamos, mas dificilmente procuramos entender, ajudar. Não sabemos o que o outro enfrenta, não sentimos suas dores, não entendemos suas escolhas porque elas não fazem parte do nosso caminho. Falar é fácil demais, difícil é calçar os sapatos do outro e andar por cima das suas pedras. Todo mundo tem um “eu” que só o íntimo de cada um realmente conhece. Abrir a boca e dizer: “A sua vida é muito fácil” ou “Você não sabe o que é sofrimento de verdade”, demonstra uma extrema arrogância e talvez um grande equívoco. Há muita atuação por aí escondendo feridas profundas, por medo ou proteção.

Portanto, evite tirar conclusões precipitadas sobre os outros, evite julgar conhecendo apenas um lado da história, a superfície. Por trás de cada pessoa há um “eu” que você não conhece por completo. Por trás de cada pessoa há uma outra pessoa que talvez você não faça ideia de quem seja. Respeite as decisões alheias, mesmo que elas não façam sentido algum para você. O jardim verdinho do vizinho, que você tanto observa, talvez seja de plástico.

Aninha Ferreira 
Graduada em Lic. Plena em Letras Língua Portuguesa – UEPB
Email: claudianne_13@hotmail.com
Artigo escrito para Revista EXPRESSO, edição nº 32

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