Desde a invasão da Suíça pelo FBI em 2015, a Fifa é refém dos EUA, que jamais poderiam sediar um torneio de congraçamento entre os povos
A justiça divina não costuma dar plantão no futebol. Mas de vez em quando ela aparece.
Caiu como um raio ontem em Seattle, na humilhante eliminação dos EUA pela Bélgica.
Nem Trump teve poder de evitar, na manchete do espanhol “Marca”.
Para alegria do mundo livre, na expressão do Juca Kfouri.
Livre, circunscrevo, da vassalagem a Trump. Mas não de seu mandonismo e da ameaça que ele é para a humanidade.
E agora, Trump? Vai meter um tarifaço no chocolate belga?
Vai tascar uma sanção da Magnitsky no “suspeito” árbitro Rafael Claus, que nem fez com o Alexandre de Moraes?
E pra contestar o Trump, vale até atestado de idoneidade da CBF e da Conmebol, né Claus?
Justiça pra ele não vale nada. Aliás, vale só se for a favor. Só a que cabe em seus cofres.
Como a Suprema Corte dos EUA, que lhe concedeu imunidade pelos crimes cometidos de dentro da Casa Branca.
Certamente é por isso que Trump não admite a condenação do vassalo Jair Bolsonaro pelo STF do Brasil.
Nos cofres dele também cabe o tribunal da Fifa, que revogou a suspensão do atacante Balogun, dos EUA, expulso na partida anterior.
E revogou, junto, qualquer simulacro de autoridade sobre o esporte que a direção da Fifa ouse ainda de reivindicar.
A Fifa deixou de ser autoridade faz tempo. Não passa de um guichê para contratos bilionários de transmissão e patrocínio.
A Fifa está nas mãos do Departamento de Justiça dos EUA desde 2015, quando o FBI invadiu a Suíça para prender o antecessor de Infantino, Joseph Blatter.
Blatter e outros dirigentes (incluindo os brasileiros José Maria Marin, Ricardo Teixeira e Del Nero) foram acusados de cobrar propina pelos direitos de transmissão da Copa e outros torneios.
Coisa de 150 milhões de dólares, num esquema com grandes redes de TV, incluindo a Globo, que para sair de cena demitiu o diretor que fazia negócios com a Fifa.
Lembram? Melhor para a Globo que esqueçam.
Infantino assumiu o lugar do condenado Blatter, numa grande operação-abafa com a cumplicidade da maior parte das confederações e federações de futebol do planeta.
Alguém tem a ilusão de que a batida do FBI na Suíça higienizou os bilionários negócios em torno do futebol?
Melhor iludir-se com o futuro da seleção brasileira.
Não foi por amor a Trump ou desamor pelo futebol que Infantino manchou de vez a Copa de 2026.
Foi por obrigação, por contrato. Foi por ser parte de uma engrenagem que movimenta bilhões. E que está sujeita aos desígnios do atual presidente dos EUA.
A mesma engrenagem que faz a mídia das classes dominantes do Brasil tratar como fato real o choro farsante do Neymar na eliminação do Brasil.
Como se o país e o mundo não tivessem presenciado seu ataque de estrelismo individualista diante do goleiro da Noruega.
Mas voltemos à divina eliminação dos EUA, só na bola. Com o delicioso arremate do último gol do Lukaku.
Não me venham comparar o trumpaço de 2026 com o caso de Mané Garrincha na Copa de 1962.
Garrincha jogou a final contra a hoje dividida Tchecoslováquia, mesmo tendo sido expulso no jogo anterior, a vitória do Brasil sobre o anfitrião Chile.
Naquele tempo não existiam cartão vermelho nem suspensão automática.
A decisão cabia a um tribunal da Fifa, dirigida na época pelo mitológico sir Stanley Rous, isento de simpatias pelo Brasil ou por qualquer seleção que não fosse da Europa.
Mas houve comoção no mundo da bola. Na ausência de Pelé, contundido gravemente na segunda partida do torneio, Garrincha era a estrela daquela Copa.
Tancredo Neves, primeiro-ministro naquele breve período parlamentarista do Brasil, entrou em campo pela seleção canarinha.
Muitos anos depois, no Natal de 1984, às vésperas de se tornar o primeiro presidente civil depois da ditadura, eu e o colega Bob Fernandes ouvimos a história contada pelo próprio Tancredo.
Ele se comprazia de ter telefonado para o presidente do Chile, Jorge Alessandri, pedindo que intercedesse no julgamento de Garrincha. E que Alessandri fez uma carta pública a favor do pleito brasileiro, em nome do bom futebol.
O fato é que tribunal decidiu que Garrincha poderia jogar. A expulsão não estava registrada na súmula e não havia testemunhas contra o craque das pernas tortas.
Mané entrou com febre e pouco fez em campo, mas já tinha cumprido a missão de levar o Brasil à final. Amarildo, o “Possesso”, Zito e Vavá marcaram os gols da vitória por 3 x 1.
Não me venham comparar Tancredo Neves com Donald Trump. Nem sir Stanley Rous com Gianni Infantino.
Ingerência política na Copa, muito antes do caso Balogun, foi a odiosa perseguição contra a seleção do Irã e seus torcedores.
Foi a crueldade mesquinha de censurar a bandeira nacional na camisa da seleção do Haiti.
As vexatórias e humilhantes revistas à delegação do Senegal.
A deportação do árbitro somali Omar Artan, o melhor juiz africano, por preconceito político e racial.
Os cancelamentos de vistos de torcedores de outros países, apenas de determinados países.
Definitivamente, os Estados Unidos de Donald Trump não mereciam sediar um torneio que é o maior congraçamento entre povos dos mais diferentes países.
Ontem, em Seattle, os deuses do futebol impuseram o castigo pelos pés de um filho de imigrantes congoleses.
Obrigado, Lukaku. Você fez o time do Trump cair de quatro.
Redação/Por Ricardo Amaral – Brasil 247
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