Na política, há momentos em que cinco minutos dizem mais do que horas de discursos inflamados. Em Marí, na Zona da Mata, bastaram poucos minutos concedidos em um programa de rádio para reacender um velho debate: até onde vai o direito de discordar e onde começa a tentativa de impor uma verdade única?
A reação do ex-prefeito Antônio Gomes à participação de um ex-assessor em um programa radiofônico local na última sexta-feira (22) não foi apenas dura; foi reveladora. O que parecia ser uma simples insatisfação política acabou expondo algo mais profundo: a dificuldade de lidar com o contraditório.
O ex-assessor, hoje integrante da atual gestão municipal, teve cerca de cinco minutos para esclarecer uma polêmica envolvendo a administração da prefeita Lucinha da Saúde. Nada além do que deveria ser rotina em qualquer ambiente minimamente democrático: ouvir os lados, permitir explicações, garantir espaço ao debate. Mas foi justamente esse gesto, o básico do jornalismo, que provocou a ira do ex-prefeito.
Em tom exaltado, Antônio Gomes classificou a participação como “vergonhosa”, questionou a coerência política do antigo aliado e, numa tentativa de desqualificar o veículo, afirmou não depender da emissora porque suas transmissões ao vivo alcançariam mais de mil pessoas. Como se audiência fosse salvo-conduto para intolerância. Como se popularidade pudesse substituir o diálogo.
Mais grave, porém, foi a tentativa de criar uma narrativa paralela, sustentada em uma informação inverídica: a de que seu nome teria sido citado pela apresentadora durante o programa, algo que, segundo relatos, não ocorreu. Quando o debate político passa a se alimentar de versões distorcidas, o problema deixa de ser pessoal e passa a ser institucional.
O episódio escancara uma prática perigosa e infelizmente recorrente em ambientes políticos menores: a tentativa de silenciar vozes divergentes por meio de constrangimento público, pressão indireta e intimidação velada.
Em Marí, há quem enxergue nessas movimentações um esforço contínuo para instaurar o que muitos já chamam, nos bastidores, de “ditadura do silêncio”, um modelo em que só uma narrativa pode sobreviver: a narrativa do líder politico, de seus aliados e de seus interesses.
E esse fenômeno não se limita a um programa de rádio.
Há relatos cada vez mais frequentes de profissionais de imprensa e comunicadores que se sentem pressionados, vigiados ou até ameaçados quando decidem exercer aquilo que deveria ser inviolável: o direito de informar. As tentativas vão desde campanhas de descredibilização nas redes sociais até perseguições discretas dentro dos próprios ambientes de comunicação.
O que está em jogo aqui não é a imagem de um político. É a saúde da democracia local.
Quem não tolera cinco minutos de contraponto dificilmente suportará uma sociedade plural.
A política precisa aprender a conviver com o desconforto da divergência. A imprensa, por sua vez, não pode se dobrar ao medo. Seu papel não é agradar grupos ou proteger vaidades; é informar, questionar e, sobretudo, garantir que nenhuma voz seja silenciada apenas porque ousou pensar diferente.
Marí merece debate. Merece pluralidade. Merece liberdade.
E liberdade, vale lembrar, começa justamente onde termina a pretensão de ser voz única.
Redação/ExpressoPB
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