Uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, na noite deste domingo (10), voltou a colocar Cabedelo no centro de um escândalo nacional envolvendo o crime organizado e sua suposta infiltração na administração pública municipal. A investigação apresentada pela emissora detalha como facções criminosas teriam atuado diretamente dentro da estrutura da prefeitura, influenciando decisões políticas, ocupando cargos públicos e desviando recursos milionários.
Segundo a reportagem, Cabedelo passou a ser comandada à distância por uma facção criminosa instalada no Complexo do Alemão, a mais de 2 mil quilômetros de distância. A Polícia Federal e o Ministério Público já realizaram mais de dez operações para combater corrupção e crime organizado no município, identificando que o Comando Vermelho se infiltrou em setores estratégicos da administração pública.
O Fantástico destacou que criminosos passaram a ditar regras e interferir diretamente na rotina da população. Conhecida pelas praias e pela localização entre o mar e o rio, Cabedelo também enfrenta problemas estruturais, como falta de coleta de lixo, ausência de asfaltamento e áreas dominadas pelo medo imposto pela criminalidade.
Segundo as investigações, integrantes do Comando Vermelho monitoravam a rotina da cidade diretamente do Rio de Janeiro. Para isso, utilizavam câmeras clandestinas espalhadas pelo município, conhecidas como “besouros”, usadas para acompanhar a movimentação de policiais, agentes públicos e moradores.
Um dos principais nomes apontados pelas investigações é Fatoka, que, de acordo com a reportagem, iniciou sua trajetória criminosa na facção Nova Okaida, na Paraíba, e depois fundou a Tropa do Amigão, apontada como um dos braços do Comando Vermelho no Nordeste. Contra ele existem 13 mandados de prisão por tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa.
A reportagem relembra ainda que o criminoso esteve preso em um presídio de segurança máxima da Paraíba durante a fuga em massa de 92 detentos, ocorrida com o uso de explosivos. Segundo as investigações, a ação só foi possível graças à comunicação entre presos e integrantes da quadrilha do lado de fora. Após retornar ao sistema prisional, Fatoka conseguiu liberdade mediante uso de tornozeleira eletrônica, em 2018, mas rompeu o equipamento no mesmo dia e fugiu para o estado do Rio de Janeiro.
Mesmo foragido, ele continuaria comandando ações da facção. Em um áudio obtido pelas investigações e exibido na reportagem, o traficante fala sobre planos de expansão do grupo criminoso para o bairro do Bessa, em João Pessoa.
Outro trecho mostrado pelo Fantástico revela um comparsa afirmando: “Cinco cabeças representando o estado da Paraíba… pra nóis ficar forte com a rapaziada”. Em resposta, Fatoka afirma: “Vou ser bem sincero pra tu: lá nas áreas, só cai uma folha se eu disser que sim”.
As investigações mostram que o crime organizado teria ultrapassado as ruas e alcançado os gabinetes políticos de Cabedelo. Conforme o material apresentado pelo Fantástico, faccionados teriam controlado setores da prefeitura, promovendo loteamento de cargos públicos, esquemas de rachadinha e desvios milionários.
O programa destacou ainda que quatro prefeitos de Cabedelo foram citados em investigações relacionadas à atuação da facção criminosa. O ex-prefeito Leto Viana renunciou ao cargo durante as investigações. Já o prefeito André Coutinho teve o mandato cassado pelo TRE. Além disso, Edvaldo Neto foi afastado menos de 48 horas após ser eleito.
Quem assumiu recentemente a gestão municipal foi o presidente da Câmara Municipal, José Pereira. Durante a reportagem, ele comentou os desafios enfrentados pela população diante da crise política e administrativa no município.
“Não é fácil, eu sei. Nós entendemos todas as situações da população”, afirmou.
Segundo os promotores responsáveis pelo caso, integrantes do Comando Vermelho teriam utilizado uma empresa terceirizada contratada pela prefeitura de Cabedelo para desviar recursos públicos e inserir aliados da facção em cargos públicos. A empresa citada é a Lemmon Terceirização e Serviços, sediada em Olinda.
As investigações apontam que a contratação da empresa teria causado um prejuízo estimado em R$ 270 milhões aos cofres públicos municipais. De acordo com os investigadores, o esquema permitia a infiltração de parentes, amigos e pessoas ligadas à facção tanto na prefeitura quanto na Câmara Municipal.
Em depoimento à polícia, a ex-gerente financeira da facção, Ariadna Barbosa, relatou como funcionava a suposta ligação entre a administração pública e o grupo criminoso. Segundo ela, pessoas indicadas pela facção eram inseridas diretamente na folha de pagamento da prefeitura.
Ainda conforme a reportagem, mais de 100 pessoas teriam sido indicadas pelo grupo criminoso para ocupar funções públicas. Os investigadores afirmam que o objetivo era manter a influência política da facção e garantir a continuidade dos contratos públicos ligados ao esquema.
A matéria também aponta que políticos aliados tinham acesso facilitado a comunidades dominadas pelo tráfico, enquanto adversários eram impedidos de entrar nessas áreas.
Durante a reportagem, o procurador-geral da Prefeitura de Cabedelo, Leonardo Nóbrega, foi questionado sobre a situação do contrato com a empresa terceirizada investigada e confirmou que a gestão pretende anulá-lo, mas de forma gradual.
“Vai haver a anulação. Só que a gente entendeu que deve haver uma modulação nos efeitos dessa contratação. Por quê? Porque é uma contratação que envolve mais de 600 funcionários. E a saída deles, de forma abrupta, causaria um transtorno gigantesco para a população que depende do serviço público na cidade e também social. Porque essas famílias também são daqui de Cabedelo”, declarou.
Por meio de nota exibida pelo programa, a Lemmon Terceirização e Serviços informou que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo e que, desde 2024, passou a exigir certidões negativas de antecedentes criminais de todos os funcionários. A empresa negou irregularidades e afirmou que as acusações atingem centenas de trabalhadores da cidade. A Lemmon declarou ainda que continua colaborando com as investigações.
A defesa de Fatoka afirmou que não existem elementos probatórios que o vinculem aos fatos narrados e disse que ele nega participação nas acusações. Segundo a polícia, o criminoso permanece foragido no Complexo do Alemão, de onde continuaria monitorando Cabedelo.
Em nota, a defesa do ex-prefeito Vitor Hugo repudiou qualquer tentativa de vincular seu nome a organizações criminosas e afirmou que não há provas de participação, favorecimento ou conhecimento de práticas ilícitas.
Os advogados de Edvaldo Neto afirmaram que ele acompanha as investigações com tranquilidade e sustentam que não existe qualquer prova concreta de participação em organização criminosa ou em fraudes investigadas.
Já a defesa de André Coutinho declarou que o gestor é inocente e não possui participação nos atos investigados, afirmando ainda que o afastamento do cargo não se justifica. O ex-prefeito Leto Viana não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.
Da redação/ Com Polêmica Paraíba
Foto: Reprodução/ Polêmica Paraíba





