Vez por outra, alguém tenta trazer aos holofotes, o discurso sobre quem teria deixado o grupo do então prefeito Antônio Gomes porque não queriam votar em Lucinha da Saúde, mas, depois da eleição, estariam “contraditoriamente” no governo dela.
A história parece simples. Mas não é verdadeira. Pelo menos não como tentam contar.
Primeiro, é preciso separar discurso de realidade.
Reduzir esse movimento a uma suposta rejeição pessoal à candidata é uma simplificação forçada. Na política, decisões não são tomadas apenas por simpatia ou antipatia. Elas envolvem contexto, divergências internas, posicionamento político e leitura de cenário.
Ou seja: dizer que essas pessoas “não quiseram votar” e pronto, é ignorar tudo o que estava em jogo naquele momento.
Agora, vamos ao ponto central.
Essas pessoas não ocuparam espaço por conta própria. Elas foram convidadas pela própria prefeita. E isso muda completamente a leitura. Porque aqui não se trata de incoerência de quem entrou. Se trata de decisão política de quem governa.
Lucinha assumiu o mandato em um ambiente de tensão. Sofreu, e ainda sofre, pressão, ataques e, em determinados momentos, viu sua liderança ser colocada à prova, inclusive com rumores de articulações políticas que poderiam fragilizar sua gestão.
E o que aconteceu nesse período? Quem pediu voto para ela, em sua quase totalidade, não apareceu para defendê-la. Esse silêncio é o fato mais importante dessa história e é justamente o que muitos preferem não lembrar.
Foi diante desse cenário que a prefeita tomou uma decisão: abrir o governo e construir uma nova base política. Não por fraqueza. Mas por necessidade e, principalmente, por liderança. Porque governar não é se fechar. É garantir sustentação para que o governo funcione.
Agora, vamos ao cenário que poucos têm coragem de discutir.
E se o resultado tivesse sido outro?
Marcos Martins foi para a disputa em condição difícil, mesmo assim teve uma votação forte na zona urbana e perdeu por uma diferença mínima. Isso mostra que o cenário era equilibrado. Se ele tivesse sido eleito, alguém acredita que governaria apenas com quem votou nele? Alguém acredita que ninguém que votou em Lucinha buscaria aproximação? Ou que, na mesma noite da eleição, não haveria gente participando da passeata da vitória?
Vamos ser honestos. Na política real, passada a eleição grupos se reorganizam, lideranças se aproximam e alianças são reconstruídas. Isso não é incoerência. Isso é governabilidade.
E é exatamente aqui que a narrativa entra em contradição.
Quando esse movimento acontece de um lado, chamam de estratégia, articulação, habilidade política. Quando acontece agora, tentam chamar de incoerência.
E aqui está o ponto que realmente explica o incômodo: “o problema nunca foi quem entrou no governo. O problema é o que isso representa.”
O que incomoda é a possibilidade real de Lucinha estar construindo um grupo político próprio. Um grupo que não dependa de uma única liderança. Um grupo que se sustente a partir do governo. Um grupo que reorganiza o cenário político local. E isso muda o jogo.
Já aconteceu antes. Quando outras lideranças romperam, reorganizaram suas bases e passaram a caminhar com autonomia, isso foi chamado de estratégia, inteligência política, força.
Não existe contradição em quem foi convidado a ajudar a governar. Contradição seria uma prefeita permanecer isolada, sem base e sem capacidade de reação. Lucinha fez o oposto.
No fim, a pergunta que fica é simples:
Quem realmente esteve ao lado da prefeita quando ela mais precisou?
Porque na política, mais importante do que quem esteve no palanque ontem, é quem está presente quando o desafio chega.

Redação/Por Manuel Batista – Escritor, ativista cultural, servidor público
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