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ANÁLISE | Das havaianas à “conserva” no Carnaval: a direita vive de polêmica para sobreviver politicamente

O enredo se repete. Muda o palco, trocam-se os personagens, mas a estratégia é a mesma: transformar manifestações culturais em trincheiras ideológicas. Desta vez, o alvo foi o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida um samba-enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e incluiu uma ala com críticas ao conservadorismo.

Bastou isso para que setores da direita, grupos conservadores e lideranças evangélicas acionassem o alarme moral. Nas redes sociais, multiplicaram-se vídeos indignados, cortes inflamados e acusações de “uso político do Carnaval”. A palavra “respeito” apareceu com frequência curiosamente acompanhada de pedidos de censura simbólica.

Mas é mesmo sobre respeito? Ou estamos diante de mais um capítulo da guerra cultural que se tornou combustível eleitoral?

A avenida como palanque e o palanque como estratégia

O Carnaval sempre foi território de crítica social. Das marchinhas aos sambas-enredo, a festa popular nunca se limitou à estética. Política, religião, costumes e poder fazem parte da narrativa carnavalesca há décadas. Quando uma escola homenageia uma figura pública, não inaugura um precedente apenas reafirma uma tradição.

O que muda é o momento político. Em um país polarizado, qualquer gesto vira provocação. E a provocação, por sua vez, vira conteúdo. Conteúdo gera engajamento. Engajamento alimenta lideranças que sobrevivem da mobilização permanente.

A ala que ironizou o conservadorismo foi tratada como afronta religiosa. Mas, no fundo, o incômodo parece menos teológico e mais eleitoral. Ao reagir com estridência, a direita reforça sua própria narrativa de perseguição cultural uma ferramenta poderosa de coesão interna.

Das sandálias ao samba: o roteiro da indignação

Não é a primeira vez que isso acontece. No fim do ano passado, um comercial da marca Havaianas protagonizado por Fernanda Torres virou alvo de críticas nas redes. A peça publicitária brincava com a superstição de “entrar com o pé direito” no Ano Novo, sugerindo entrar “com os dois pés”.

A reação foi desproporcional. Houve quem enxergasse “ataque a valores cristãos”, “desrespeito à tradição” e até “agenda ideológica” numa campanha de sandálias. O episódio seguiu o mesmo roteiro: indignação viral, mobilização digital, tentativa de boicote.

O padrão se repete: cultura vira campo de batalha simbólica. O Carnaval, assim como a publicidade, torna-se pretexto. O objetivo real parece ser manter a base permanentemente ativada, sempre em alerta, sempre reagindo.

A política do ruído

A estratégia não é nova, mas ganhou força nos últimos anos: deslocar o debate de temas estruturais [ economia, emprego, saúde, educação ] para pautas identitárias e morais. É mais fácil mobilizar pela emoção do que pela planilha.

Ao transformar um desfile em “ataque aos cristãos” ou um comercial em “ameaça aos valores”, cria-se uma cortina de fumaça conveniente. A discussão deixa de ser sobre políticas públicas e passa a ser sobre símbolos.

E símbolos inflamam.

O problema é que, nesse processo, empobrece-se o debate público. Em vez de discutir projetos de país, discute-se fantasia. Em vez de políticas econômicas, debate-se alegoria.

Cultura não é crime, é expressão

A crítica faz parte da democracia. Quem discorda do desfile tem o direito de se manifestar. Mas há uma diferença entre discordar e transformar cada expressão artística em crise institucional.

O Carnaval não é um culto religioso. Tampouco a publicidade é catecismo. São manifestações culturais — e cultura, por definição, é plural. Quando a reação a essa pluralidade é a tentativa de silenciamento ou boicote moral, o que está em jogo não é fé. É controle narrativo.

No fim das contas, das Havaianas ao samba-enredo, o que se vê é uma direita que encontra na polêmica cultural um atalho para manter relevância e engajamento. A indignação vira método. O conflito vira estratégia.

Enquanto isso, o país real, aquele que enfrenta desemprego, desigualdade e desafios fiscais, segue esperando que o debate público desça do carro alegórico e volte ao chão da realidade.

Redação/ExpressoPB
Foto Reprodução 

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