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Pesquisador da Fiocruz critica ministério sobre vacina: Atrasado em tudo



Publicado em terça-feira, dezembro 8, 2020 · Comentar 

Julio Croda, infectologista pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), se disse preocupado com a organização do governo federal para vacinar a população brasileira contra a covid-19. Ele afirmou que o Ministério da Saúde deveria dar uma mensagem mais clara sobre a compra de imunizantes. E acrescentou que o Brasil está “atrasado em tudo”, inclusive na compra de materiais para vacinação.

“O mundo todo corre atrás dos insumos. Não é só o Brasil. Seringas e agulhas são fundamentais para a vacinação. Vai ter competição no mercado. A gente já viu isso na época dos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e dos respiradores, quando a gente não teve compra imediata e não pôde ofertar mais leitos por conta disso. Pode ser que tenha vacina em março. Mas se essa compra (dos insumos) for fracassada por falta de fornecedor, pode ser que a gente tenha que adiar essa vacinação”, afirmou Croda em entrevista à Globonews.

Na minha avaliação, a gente está muito atrasado em tudo. Esse movimento de vacina está ocorrendo há seis meses. A gente sabia que ia precisar de seringas e agulhas independentemente do tipo de vacina escolhida.
Julio Croda, infectologista pesquisador da Fiocruz

O governo federal anunciou ontem que está negociando a compra de 70 milhões de doses da vacina produzida pela Pfizer, em parceria com a BioNTech. Julio Croda, no entanto, acredita que essa movimentação foi “tardia”.

“A maioria dos países envolvidos assinou um termo de intenção de compra de um lote expressivo. E tem que fazer com antecedência, porque as empresas trabalham com previsão. O Instituto Butantan ofertou um número maior de doses para o Ministério da Saúde, que achou que não era necessário”, afirmou Croda, lembrando da polêmica sobre a CoronaVac —em outubro, o Ministério da Saúde chegou a assinar a intenção de compra desta vacina, mas o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cancelou a negociação, após discussões públicas com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Quando questionado sobre o PNE (Plano Estadual de Vacinação), divulgado por Doria ontem, Julio Croda disse que o governo federal deveria agir de outra maneira, para tranquilizar os gestores estaduais e municipais.

“Com o anúncio da antecipação da vacinação de São Paulo em mais de dois meses, isso gera pressão no governo federal. Estados e municípios estão anunciando compras de vacinas específicas. Pfizer pediu liberação. Se for liberada, não tem impedimento para que estados adquiram esse insumo”, apontou Croda.

“É importante que o ministério assuma isso o mais rápido possível e deixe claro que, se tiver a vacina aprovada pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] antes de março, vai estar adquirindo o máximo de lotes possíveis. Essa gestão tem que estar clara para gestores municipais”, disse.

“Claro que depende da capacidade do fornecedor de vender vacina também. Mas se governo federal trouxer essa mensagem simples, de que vai adquirir lotes de vacina aprovada pela Anvisa, gera tranquilidade para o gestor, para ele não fazer negociações em paralelo de qualquer tipo de vacina.”

O infectologista da Fiocruz também comentou sobre o início da vacinação contra a covid-19 no Reino Unido, que aconteceu hoje, e demonstrou otimismo.

“É o começo do fim da pandemia. A gente vai precisar vacinar uma grande parcela da população. O mundo todo está à espera da vacina. Existe um delay. Já existiu delay da vacina da influenza, de seis meses, para a vacina chegar em países mais pobres. Mas é uma esperança e temos que acreditar nessa esperança”, concluiu Croda.

Atualmente, quatro vacinas contra a covid-19 estão em teste no Brasil. Antes de serem distribuídas e aplicadas, elas devem ser aprovadas e registradas pela Anvisa.

Da redação/ Com UOL
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