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Vacinação em massa em países mais pobres corre risco de ocorrer só em 2024



Publicado em segunda-feira, novembro 2, 2020 · Comentar 

Na sede da ONUAids – a agência das Nações Unidas para o tratamento do HIV – a sensação gerada pela atual pandemia e a resposta dos governos mais ricos é de voltar a ver um filme já conhecido por muitos na organização: a da desigualdade de acesso ao tratamento.

30 anos depois de uma das maiores disputas diplomáticas e comerciais do século por conta do acesso ao tratamento contra o HIV, a pandemia da covid-19 recoloca sobre a mesa velhas questões não resolvidas: como garantir a distribuição de remédios para todos.

Um estudo publicado nesta segunda-feira pela Duke Global Health Innovation Center, nos EUA, constata que os países ricos e alguns emergentes já reservaram 3,8 bilhões de doses para seus habitantes, além de terem feito opções concretas de compras futuras de outras 5 bilhões de doses.

Se a busca por proteção é legítima, a disparidade e a falta de uma ação global podem deixar milhões de pessoas sem a vacina. Para os especialistas, ao reservarem grande parte da capacidade de produção de vacinas do mundo, esses governos poderão estar deixando enormes proporções das populações de países mais pobres sem o produto por anos, principalmente na África e Ásia. Segundo o estudo, esse segmento poderia ter de esperar de dois a quatro anos para finalmente ter acesso completo às vacinas. A projeção é de que apenas em 2024 a capacidade de produção de vacinas será suficiente para abastecer o mundo.

Só o governo americano já comprou ou reservou 810 milhões de doses, superior às necessidades para cobrir toda sua população. Foram mais 600 milhões para a Índia e outros 400 milhões na UE, sem contar com as encomendas nacionais de cada um dos 27 países do bloco. Com 340 milhões de doses, o Reino Unido foi outro que já comprou mais vacina que necessitaria para imunizar toda sua população, contra mais de 358 milhões para o Canadá, volume suficiente para vacinar cinco vezes toda a população do país.

No caso do Brasil, os cálculos apontam para 196 milhões de doses já asseguradas.

No total, o levantamento revela que 2,2 bilhões de doses foram encomendadas pelos países ricos, contra 544 pelos emergentes e 740 milhões pelos países de renda média.

O volume é superior a tudo o que o consórcio mundial – Covax – conseguiu até agora comprar – 500 milhões de doses. A aliança foi criada na OMS justamente para suprir essa lacuna no abastecimento dos países mais pobres. Mas, com governos ricos e grandes emergentes já fazendo reservas em quantidades inéditas, a realidade é que a capacidade produtiva das grandes farmacêuticas não teria como garantir um abastecimento para o resto do mundo por alguns anos.

O instituto que tem sua sede na Duke University, de fato, chegou à constatação de que não pode encontrar nenhuma evidência de que os países mais pobres tenham fechado qualquer tipo de acordo com as grandes farmacêuticas, o que os deixa dependentes da Covax, a aliança mundial.

Não por acaso, a OMS é explícita: “o nacionalismo de vacina pode adiar o fim da pandemia”.

Um dos maiores obstáculos para que a aliança funcione é a falta de recursos. A OMS estima que o consórcio precisa de US$ 38 bilhões para funcionar, mas conta com apenas US$ 4 bilhões. Há uma semana, o Banco Mundial anunciou empréstimos de US$ 12 bilhões. Mas o volume é considerado como insuficiente.

Maiores compradores de doses de vacinas

EUA : 810 milhões
Índia: 600 milhões
Covax: 500 milhões
UE: 400 milhões
Canadá: 358 milhões
Reino Unido: 340 milhões
Japão: 240 milhões
Brasil: 196 milhões
Indonésia: 110 milhões
Austrália: 84 milhões

Lições da Aids

Para especialistas, a falta de um acordo global sobre como lidar com a doença e a resistência de países ricos em ceder na autorização para a produção de remédios genéricos pode levar o mundo a repetir o cenário das primeiras décadas da resposta à Aids.

Anos se passaram até que as populações mais pobres tiveram de fato acesso ao tratamento. No caminho, milhões de pessoas perderam suas vidas. Em 2003, por exemplo, apenas 400 mil pessoas recebiam o tratamento, sendo que um terço deles ocorria no Brasil. Foi apenas em 2009 que o número de pessoas beneficiadas atingiu 6,4 milhões. Hoje, 30 anos depois, o volume chega a 25,4 milhões de pessoas.

“Não podemos repetir as dolorosas lições dos primeiros anos da resposta à SIDA, quando as pessoas nos países mais ricos voltaram à saúde, enquanto milhões de pessoas nos países em desenvolvimento foram deixadas para trás”, disse Winnie Byanyima, diretora-executiva da ONUAids.

“Se continuarmos como se nada estivesse ocorrendo, não conseguiremos proporcionar um acesso justo aos tratamentos da covid-19 a todos os necessitados. No entanto, o acesso justo é o direito humano de todos, independentemente da cor da sua pele, do dinheiro no seu bolso ou do país onde vivem”, completou.

Da redação/ Com UOL

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