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Pe. Reginaldo Pires escreve: “E agora nossos pés já se detém, Jerusalém, em tuas portas” (Sl 122)



Publicado em sábado, junho 6, 2020 · Comentar 

Nestes últimos dias tem-se ouvido falar sobre o retorno das atividades religiosas em diversos lugares. Embora, certamente devam ser observadas diversas restrições, as quais poderão nos acompanhar por um longo tempo, nosso coração já pode sentir um certo sinal de alegria e contentamento. Tendo em vista as situações que ainda nos envolvem, mas cheio da esperança que nutre a vida de um cristão, veio-me à mente o salmo 122, a subida para Jerusalém, considerado o canto do retorno do exílio.

É público e notório que permanecem ainda muitas incertezas e preocupações, não sabemos nem como serão os próximos dias: Se os casos aumentam ou diminuem; já é o momento do tão temido “pico”? Usar máscara ou não? A economia deve prevalecer? Ou devemos ficar todos em casa? Como ficar em casa sem ter o que comer? E se sair, colocar a própria vida e a de quem amamos em risco?  Se não bastasse tudo isso, outros graves problemas assolaram ainda mais esse período. A quantas profundas tragédias humanas assistimos. Ficamos atônitos com a força da crueldade humana. Perplexos diante de um cenário político polarizado.

Na proposição do salmo, vemos o caminho percorrido pelo povo de Deus nos seus exílios, os retornos e recomeços. Muitos peregrinos com escassas esperanças de poderem reconstruir a vida, outros desacreditavam da possibilidade de recomeçar. Mas, quando se aproximavam da cidade de Jerusalém, uma força os envolvia. Jerusalém é o lugar da identidade. Sentiam-se em casa, após uma longa viagem. Foi mesmo o próprio Deus que os trouxe de volta, com mão forte e braço estendido, como asas de águia (Ex 19, 4). Todas as vezes que o Povo de Deus marchava para Jerusalém, entoavam este salmo: “Vamos à casa do Senhor” (Sl 122).

Fora do lugar da identidade, se perde os referenciais indispensáveis para a sobrevivência. Longe de Deus e da cidade santa, o povo se sente sozinho, muitas vezes abatido e triste, pois “como poderíamos cantar um canto do Senhor numa terra estrangeira? ” (Sl 136). Como esqueceremos daquele lugar que Senhor preparou para nós e sentíamos a sua presença de uma forma tão sublime e suave. Por isso, o povo inicia o processo de reconstrução por Jerusalém. O primeiro passo é edificar novamente o Templo, destruído pela opressão dos perversos e pela falta de fé daqueles que dominavam.

São Paulo, desse sinal do Templo reflete sobre o Corpo de Cristo, para falar da Nova Jerusalém, a Igreja (1Cor 12, 12-26), sendo assim, se um membro sofre, todo o corpo sofre. Se um membro se alegra, todos se alegram. Que bela referência para o retorno à comunidade de fé. Como esqueceremos as famílias que passaram e ainda passam por dificuldades, as mais diversas, seja da economia, para sustentar suas casas, mas também por razões de saúde, lembrando aqueles que perderam entes queridos, familiares, amigos, conhecidos, por um mal invisível, por isso, ignorado por muitos, mas não por quem tem fé.

Que não sejamos indiferentes às dores, às guerras, às lutas de muitos caídos à beira do caminho e que gritam, debaixo das forças dominantes, excludentes e opressivas até o último suspiro. Ao deter nossos pés nas portas do Templo, seja o momento para pensar em quantos templos humanos que caíram, são igualmente templos de Deus. A reconstrução pode começar justamente por este templo, em vista daquela Jerusalém do alto, anunciada pelo Apocalipse. Que a dor do outro não nos seja indiferente. Lembre-se das palavras de Deus dirigidas a Moisés: “tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3, 5).

Pe. Reginaldo Pires Amâncio
Caratinga-MG

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