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Tráfico e milícias travam disputa em Jacarepaguá e Campinho, confrontos espalham medo por dez comunidades



Publicado em domingo, dezembro 25, 2022 · Comentar 

Na madrugada de ontem, traficantes da comunidade Bateau Mouche, na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio, atacaram uma base da Polícia Militar localizada na região. Houve confronto, os agentes solicitaram reforço e um blindado foi deslocado para o local. A ação teria começado por volta das 3h, quando criminosos, além de atirar contra a base, arremessaram pedras e coquetéis molotov. Mais uma vez, a área amanheceu com segurança reforçada.

R$ 6 milhões em jogo

A mais recente cena de violência soma-se a episódios de uma disputa sangrenta por exploração de negócios irregulares —como cobrança de taxas de segurança e venda de sinal clandestino de TV a cabo e de internet. O conflito envolve bandidos de dois grupos milicianos e de duas facções criminosas. As quadrilhas brigam pelo controle de uma arrecadação mensal, estima a polícia, de cerca de R$ 6 milhões.

O campo de guerra se espalha por dez comunidades, nove localizadas em Jacarepaguá, na Zona Oeste, e uma em Campinho, na Zona Norte do Rio. Os confrontos já duram sete meses e trazem um rastro de pelo menos 12 mortes. Entre as vítimas, um turista americano.

No meio da disputa ficam milhares de moradores de Jacarepaguá —das comunidades Santa Maria, Renascer, Tirol, Jordão, Gardênia Azul, Covanca, Bateau Mouche, Barão e Chacrinha, as três últimas localizadas na Praça Seca —, além do Campinho (Morro do Fubá), obrigados a alterar a rotina em nome da sobrevivência. Quem mora nessas regiões diz que, durante à noite, o melhor é não sair de casa. Para os que estão na rua, o medo das balas perdidas é motivo para só regressar pela manhã.

—As pessoas costumam não sair depois das 17h, geralmente é neste horário que os confrontos começam. Quem trabalha na parte da tarde e sai no fim da noite prefere dormir no trabalho e só voltar para casa de manhã. É mais seguro —disse uma moradora da Praça Seca, que não quis se identificar.

No dia 9 de agosto, o turista americano Joseph Trey Thomas tornou-se vítima de bala perdida ao ser atingido dentro da casa de uma amiga em um dos acessos ao Morro do Fubá. Três dias depois, ele morreu num hospital da Zona Sul. No fim de setembro, a Igreja de São Jorge, em Quintino, suspendeu uma missa por conta do risco de tiroteios. A ordem para fechar os portões partiu de traficantes da região. O bairro é vizinho à Praça Seca e serve de ponto de partida de bandidos do Morro do Dezoito, que participam dos enfrentamentos no Morro do Fubá.

A mais recente vítima da guerra foi o soldado PM Caio Cezar Lamas Cordeiro, de 31 anos. Ele patrulhava o Morro do Tirol, na Taquara, no dia 11 de dezembro, quando foi baleado no braço e no pescoço. Levado com vida para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, não resistiu. De acordo com informações recebidas pela polícia, a comunidade do Tirol foi uma das áreas invadidas pela maior facção criminosa do Rio, mas antes estava sob influência da milícia de Leonardo Lucas Pereira, o Leléo, atualmente foragido da Justiça.

Cinco dias antes do soldado Caio Cordeiro, outro policial militar perdeu a vida numa localidade controlada pela mesma facção. O sargento Ângelo Rodrigues de Azevedo, do Batalhão de Operações Especiais (Bope), participava de operação na favela Bateau Mouche quando foi atingido por tiros. Levado para o Hospital Getúlio Vargas, também não resistiu aos ferimentos.

Território dividido

Na noite do dia 9, homens sob o comando de Zinho, que controla negócios ilícitos em Santa Cruz e Campo Grande, acompanhados de milicianos do Terreirão, no Recreio, tentaram invadir a Gardênia Azul. Em Jacarepaguá, perto da Cidade de Deus, a comunidade é explorada por paramilitares do grupo de Leléo. Após tiroteio, dois moradores ficaram feridos por balas perdidas.

Atualmente, a maior facção criminosa do Rio ocupa territórios na região, nas comunidades de Santa Maria, Renascer e Tirol, além da Taquara. Na Praça Seca, o mesmo grupo tem controle de áreas do Morro da Barão e do Bateau Mouche. Já a milícia de Leléo comanda negócios na Favela da Chacrinha (Praça Seca), com apoio de homens da segunda maior facção criminosa do Rio, vindos do Morro da Serrinha, em Madureira.

De acordo com informações da polícia, no Morro do Jordão, na Taquara, e no Morro do Fubá, milicianos estão nas partes inferiores, enquanto traficantes da maior facção criminosa do Rio ocupam o alto.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que, entre maio e dezembro deste ano, 23 pessoas baleadas deram entrada no Hospital Lourenço Jorge, hospital público mais próximo de Jacarepaguá. Do total, 13 foram atendidas entre outubro e dezembro, período em que o confronto se acentuou. As secretarias estadual e municipal de Educação não têm um levantamento dos dias com aulas suspensas por conta de tiroteios na região.

Segundo a Secretaria de Polícia Civil, organizações criminosas que atuam nessas áreas são alvos de operações permanentes, e uma força-tarefa de combate a milicianos já prendeu mais de 1.300 pessoas, gerando prejuízo de mais de R$ 2,5 bilhões para as quadrilhas. A corporação afirma que, conforme dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), comparados os meses de janeiro a outubro de 2022 e 2021, houve queda de 33% nos roubos de rua e 11% nos homicídios dolosos na área do 18º BPM (Jacarepaguá). Essas reduções, diz a PM, acompanham a queda de 8,5% na letalidade violenta na região.

Da Redação 
Com Extra

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