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Cinco anos depois, legado da Rio 2016 tem obras inacabadas, projeções fracassadas e projetos no papel



Publicado em sexta-feira, julho 23, 2021 · Comentar 

O legado olímpico prometido para a cidade do Rio de Janeiro, após a realização da Olimpíada em 2016, tinha previsões empolgantes. Cinco anos depois, às vésperas dos Jogos de Tóquio, o projeto ainda deixa a desejar: tem obras inacabadas, projeções fracassadas e projetos ainda no papel.

Os problemas começam no gasto total para a realização da maior competição esportiva do mundo. O dossiê de candidatura da cidade para sediar a Rio 2016 previa um gasto total de R$ 28 bilhões, R$ 13 bilhões a menos que os R$ 41 bilhões usados até agora.

Ainda com pendências, o custo da Olimpíada ainda está em aberto e vai crescer.

Quatro dias após a reportagem ser publicada, a Prefeitura do Rio procurou o G1 para informar que o gasto total com os jogos foi de R$ 39,07 bilhões.

Segundo a prefeitura, o orçamento olímpico foi ajustado pelo aumento no número de projetos do legado, de 17 para 27. Foram incluídos a Linha 4 do metrô, os piscinões da Praça da Bandeira e a ampliação do Elevado do Joá.

‘Largado olímpico’

A Comissão de Esportes da Câmara Municipal do Rio tem feito inspeções para acompanhar o legado desde 2017. Ao G1, o presidente do grupo, o vereador Felipe Michel (PP), afirmou que observou um “largado olímpico” e abandono das instalações esportivas.

“Já em 2017, a gente observou um largado olímpico (…) Faltou planejamento. A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro pensou nas Olimpíadas, nas grandes obras, mas esqueceu de deixar um planejamento para um legado olímpico para nossas crianças, nossos jovens e atletas. Faltou botar a mão na massa e pensar de fato num legado olímpico”, afirmou o vereador.
O G1 procurou o prefeito Eduardo Paes — que administrava a cidade na época dos jogos e voltou ao comando da gestão municipal em 2018 – para uma entrevista. No entanto, a prefeitura se manifestou através de seus secretários.

O secretário municipal de Esportes do Rio, Guilherme Schleder, afirmou que licitações estão sendo realizadas para, finalmente, finalizar o legado. Apesar disso, ele lamentou a situação pós-Olimpíada.

“É frustrante o que aconteceu do legado, mas não tem nada que tenha sido perdido, que tenha sido jogado fora e que tenha estragado não”, disse o secretário
A secretária municipal de Infraestrutura, Katia Souza, participou do projeto olímpico desde a montagem das arenas. Ela afirmou que a entrega do legado é uma demanda de Eduardo Paes no seu retorno para a Prefeitura do Rio.

“Não é fácil, é um desafio para a gente, mas a gente pretende realmente entregar finalmente esse legado” (…) “A gente levou um tempo ainda desenvolvendo esse projeto para caber, porque a gente tinha que abaixar esse custo. Se não, ficaria muito caro”, disse.

Investigação de corrupção

Os bastidores da Rio 2016 também envolvem suspeitas de irregularidades desde a compra de votos para a escolha da cidade como sede dos jogos até fraude em licitações de obras.

A força-tarefa da Lava Jato no Rio apura se o episódio chamado de “farra dos guardanapos” — onde o ex-governador Sérgio Cabral, empresários e outras autoridades aparecem em fotos com guardanapos na cabeça em Paris — não seria uma comemoração antecipada sobre a escolha do Rio de Janeiro como sede.

Já o prefeito do Rio, Eduardo Paes, virou réu na Justiça Federal por corrupção passiva, fraude em licitação e falsidade ideológica. A acusação é relacionada a suposto direcionamento na licitação pra construção do Complexo de Deodoro para as Olimpíadas de 2016. Paes nega as acusações.

Revitalização da Zona Portuária

Implosão da Perimetral abriu caminho pra revitalização da região — Foto: TV Globo

A cidade do Rio recebeu obras importantes de infraestrutura ao ser escolhida como sede da Olimpíada.

O Boulevard Olímpico, espaço de ligação entre a Zona Portuária e o Centro da Cidade, deu novos ares para a Zona Portuária, renovada com a demolição da Perimetral. Durante a Rio 2016, foi ponto de encontro para torcedores e turistas.

Se antes era marcada pelo abandono, a região hoje é turística e também ponto de lazer da população, que além da bela vista da Baía de Guanabara reúne museus, espaço para eventos, o AquaRio e a roda gigante.

Apesar da melhora, no entanto, nos últimos anos Zona Portuária sofre com problemas de conservação e segurança, e o prometido aumento habitacional na área ainda não decolou. Recentemente, novos projetos foram anunciados.

Linha 4

Foto de arquivo: Vista do canteiro da Estação da Gávea, cujas obras estão paradas desde 2015 — Foto: Reprodução/TV Globo

A Linha 4 do metrô, que liga as zonas Sul e Oeste, é um compromisso olímpico que segue inacabado cinco anos após a realização dos jogos. A Estação Gávea, uma espécie de apêndice do novo trajeto, virou o “calcanhar de Aquiles” do projeto e segue com as obras paralisadas desde 2015 por causa de riscos estruturais.

Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Rio apontou que as obras causaram um dano de R$ 3,7 bilhões ao erário público. O valor, segundo o TCE, ainda pode ser modificado já que há processos em tramitação no tribunal.

O Governo do Estado informou que irá realizar uma licitação no próximo dia 23 de julho para a elaboração de um projeto básico, que irá sanar os problemas estruturais. Depois disso, haverá uma nova licitação para, então, realizar o plano executivo e finalizar as obras na estação.

BRT

Passageiros andam do lado de fora do BRT lotado — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Aglomeração no transporte público: passageiros não têm alternativa e viajam no BRT lotado — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Os ônibus articulados foram o transporte mais utilizado durante a Rio 2016 e a maior aposta de mobilidade da Prefeitura do Rio. O corredor expresso TransOlímpica conseguiu ser inaugurado a tempo.

O serviço funcionou bem durante as competições e nos primeiros anos após os jogos. Os corredores expressos faziam o transporte do público para as arenas e foi motivo de elogio.

O modal, no entanto, vem se degradando ao longo dos anos. O transporte é marcado por péssimas condições e superlotações, mesmo em tempos de pandemia.

Em 2016, a prefeitura informou que circulavam 375 ônibus. O número caiu para 180 nos dias atuais. No entanto, a prefeitura informou que tem a intenção de aumentar a frota gradativamente em 500 veículos a partir do segundo semestre de 2022. A previsão é que a licitação seja lançada em dezembro.

A TransBrasil, por sua vez, era para ter sido finalizada em maio de 2017. No entanto, as obras seguem paradas e devem ser retomadas em agosto. Haverá, segundo a prefeitura, um acréscimo de mais R$ 361 milhões, com gasto final de R$ 1,89 bilhão.

“A gente está com previsão de retomar essas obras em agosto desse ano e a conclusão do sistema em julho de 2023”, afirmou a secretária de Infraestrutura.

Passageiros fazem fila para esperar o BRT no Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Estação do BRT Olof Palme, abandonada, na Avenida Salvador Allende, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio — Foto: Marcos Serra Lima/G1

VLT

24 de março – VLT circula vazio na Praça Mauá, na entrada da Avenida Rio Branco na tarde desta terça — Foto: Marcos Serra Lima/ G1 Rio

O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) foi considerado uma novidade para o projeto de reocupação do Centro do Rio. O novo projeto, no entanto, não atendeu as expectativas e passou pela sua pior fase durante a pandemia de Covid-19.

“A circulação do VLT começou em junho de 2016. Ele previa, após a implementação total das três linhas, em torno de 250 mil passageiros por dia útil. Antes da pandemia, a gente estava com 110 mil passageiros por dia útil. (…) A pandemia afetou a demanda do VLT substancialmente. No início da pandemia, a demanda caiu em torno de 90%”, afirmou Márcio Hannas, CEO do VLT Carioca.

Apesar disso, a expectativa é que o transporte passe por uma nova fase com a proposta da prefeitura de levar empreendimentos residenciais para o Centro do Rio.

“A reocupação do Centro do Rio vai acontecer e eu não tenho dúvida. O VLT foi implantado para fazer a integração entre a região portuária e o centro financeiro da cidade (…) Se você trouxer moradia para o Centro da cidade, você passa a ter também o uso mais uniforme durante o período de operação. Com isso, com certeza, uma maior demanda”, afirmou Hannas.

Vila dos Atletas

5 anos depois das Olimpíadas do Rio, apenas um terço dos apartamentos da Vila dos Atletas foi vendido — Foto: Marcos Serra Lima/G1

A Ilha Pura, como foi batizado o empreendimento imobiliário onde funcionou a Vila dos Atletas na Rio 2016, tem cerca de um terço dos imóveis ocupados. O espaço tem apartamentos de dois, três e quatro quartos, além de coberturas.

O tamanho dos imóveis varia de 77 a 325 metros quadrados. Os valores de venda vão de R$ 650 mil a R$ 2,5 milhões, com o metro quadrado médio do bairro a R$ 8,7 mil.

O G1 visitou o espaço em 2019 e foi informado que a estrutura do condomínio seria ampliada. A Carvalho Hosken, que administra o empreendimento, informou que a pandemia de Covid atrasou os planos e as obras devem começar “em breve”.

Parque Olímpico

Arena do Futuro

A Arena do Futuro, que seria transformada em 4 escolas, segue montada e se deteriorando — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Tido como o coração da Rio 2016, o Parque Olímpico tem sinais de abandono. A Arena do Futuro, por exemplo, utilizada para os jogos de handebol durante o evento, está há quase 5 anos sem ser utilizada.

O projeto inicial previa a construção de quatro escolas a partir da desmontagem do estádio. Mas, as unidades devem ser entregues à população apenas em 2023. O valor estimado para a desmontagem da estrutura e, em seguida, da construção das escolas é de R$ 78 milhões.

“Não era para estarmos pagando essa conta de R$ 78 milhões. Isso já é um jogo de empurra, do governo federal com o governo municipal. Já se passaram anos, e só agora que vamos ter de fato transformado em escolas, que são os Ginásios Experimentais Olímpicos. Não era para estar falando de quatro GEOs. Era para estarmos falando de 10, de 15”, disse o vereador Felipe Michel.

Arena Carioca 3

A Arena 3, no Parque Olímpico, tem aulas de diversas modalidades — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Na Arena Carioca 3, a única em funcionamento, diversas atividades são oferecidas gratuitamente para alunos, como aulas de ginástica, handebol, artes marciais, badminton e outros esportes. O objetivo é que o espaço também ganhe uma escola.

“O prefeito já pediu o projeto e está lendo. A gente tinha o conceitual da época da elaboração dos projetos, mas a gente já está desenvolvendo o projeto para fazer a adequação da escola”, afirmou a secretária municipal de Infraestrutura, Katia Souza.

Espaços administrados pelo Governo Federal

Outros espaços do Parque Olímpico estão sob responsabilidade do Governo Federal desde 2016.

Em nota, o Ministério Cidadania disse que “tem trabalhado no plano de destinação das Arenas Cariocas 1 e 2, do Centro Olímpico de Tênis e do Velódromo, no Parque Olímpico da Barra, num formato sustentável, considerando os aspectos econômicos, sociais e ambientais”. Informou ainda que o documento será apresentado às autoridades competentes “tão logo seja finalizado”.

A prefeitura do Rio, no entanto, informou que prepara um novo pacote de concessão desses equipamentos.

“A Arena 1, Arena 2, o Velódromo, o tênis e a Rua Olímpica, a gente passou algumas sugestões para o prefeito e ele está batendo o martelo final para ver como faria essa licitação para poder conceder para o privado”, disse o secretário de Esportes, Guilherme Schleder.

Piscinas olímpicas

O destino das piscinas olímpicas também está incerto. A desmontagem do Centro Olímpico de Esportes Aquáticos envolve o uso de uma piscina que custou aproximadamente 800 mil euros (quase R$ 5 milhões), segundo a prefeitura.

O município de Maricá demonstrou interesse em levá-la para a cidade e está em negociação para receber a doação do Rio.

“O prefeito de Maricá tinha sinalizado interesse. A gente quer dar uso para essas piscinas. Uma delas foi até doada para o Exército, mas o Exército não conseguiu colocá-la em uso porque não é uma operação barata. E a Prefeitura de Maricá já veio aqui no Rio, a gente fez duas visitas com eles”, afirmou Schleder.

Parque Radical

Pista de BMX está em condições precárias — Foto: Divulgação

O Parque Radical de Deodoro, na Zona Norte do Rio, também apresenta focos de degradação. A pista para a prática de BMX está em situação precária. Faltam funcionários para a manutenção do espaço, segundo a Comissão de Esportes.

“Nas diligências que já fizemos, ficou claro e evidente que precisa-se fazer manutenção, precisa-se fazer investimento, precisa-se de planejamento. Porque, se não, o nosso legado ele ficará largado e se acabará. É triste para a nossa cidade não ter um legado de fato”, disse o presidente da comissão.

A Prefeitura do Rio informou que o lago, onde aconteceram as competições de canoagem slalom, foi aberto ao público para lazer aos fins de semana.

Da redação/ Com G1-Rio

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