terça, 07 de abril de 2020
SIGA-NOS

Um mergulho na história: Como a cidade de Cruz do Esp. Santo conseguiu se reerguer após ser devastada três vezes pelas águas do rio Paraíba



Publicado em terça-feira, março 17, 2020 · Comentar 

 

 

REPORTAGEM 

Um mergulho na história

Como a cidade de Cruz do Espírito Santo conseguiu se reerguer após ser devastada três vezes pelas águas do rio Paraíba

 

Quem viaja da capital para o brejo paraibano, seja pela BR 230 ou pela rodovia estadual 004 passará necessariamente pelo município de Cruz do Espirito Santo, localizado poucos quilômetros após Santa Rita. Com 124 anos de fundação, o município que é a terra-mãe de Sapé, já foi devastado pelo menos três vezes pelas águas do Rio Paraíba que corta seu território e margeia a rodovia estadual e a área urbana da cidade.

Para contar a história, EXPRESSO reproduz o trecho do pronunciamento do então deputado federal, de saudosa memória, Raymundo Asfora, que do alto da tribuna da Câmara dos Deputados no Congresso Nacional registrou no ano de 1984 esse fato histórico do povo de Cruz do Espírito Santo, conforme registra o livro História e Debate da Assembleia Legislativa, Volume III publicado pela Casa de Epitácio Pessoa.

As páginas 578 à 583 registra a narração dos fatos ocorridos em Cruz do Espírito Santo por Asfora, momento em que, segundo a publicação, todos os deputados, serventuários e jornalistas presentes à sessão “ficaram absortos num silêncio de atenção mediúnica”.

Relata então Asfora em seu pronunciamento que “em 1789 a Paraíba estourou em uma das suas fatídicas cheias. As águas furiosas, em crespos redemoinhos, levam tudo nos peitos. Apagaram-se desenhos naturais e obras humanas ao rastro turvo da correnteza selvagem. Espírito Santo ficou submersa, sepulta nos seus próprios escombros, como cemitério fluvial.”

Adiante, o deputado paraibano continua a descrever o que os fatos lhe mostraram: “A população flagelada nos barrancos assistia as cenas de que ela mesma era protagonista, imobilizada pelo pânico até que, estiado a enchente, seu espanto foi ainda maior.”.

O surgimento da cruz que ainda hoje está plantada de frente a matriz em um obelisco, foi revelada por Asfora: “No centro da cidade, trazida pelo rio, plantada em um monte de areia, erguia-se uma gigantesca cruz de madeira. Nunca ninguém soube da origem do símbolo sagrado. O fato histórico por sua e radiação mística, levou os habitantes da região a denominarem de Espírito Santo.”.

“Mais de um século depois, o Vigário da Paróquia, padre José João da Costa, com a graça da devoção apostólica da comunidade, levantou um pedestal a cruz nascida das Águas.”, registra o parlamentar a primeira grande cheia que assolou a cidade.

No mesmo discurso Raymundo Asfora, que fora votado no município na eleição do ano de 1983, daí seu interesse nas causas local, fez o registro histórico da segunda cheia que voltou a atormentar a população daquele município.

“Em abril de 1924, mais outra cheia do rio Paraíba. Ela atirou-se violentamente sobre Cruz do Espírito Santo. O turbilhão destruiu casas, desenraizou lavouras e enlutou famílias, deixando aquele pobre universo municipal em destroços. Como que detonada, por um ciclo fatídico, nova investida da vertente bravia, em 1947. O rio insistia em demolir Cruz do Espírito Santo.  Levou de empurrão mais de 300 prédios de sua paisagem urbana. E a zona rural alagada por longos dias quando voltou a luz do sol, estava retorcida em campo de lodo e lama, árvores mortas e curvos voejos negros sobre inchações enormes de carcaças.” Disse.

O paraibano prossegui lembrando do que foi feito para soergue o município: “Restaurou o seu município, por suas próprias forças, reingressando na rotina de sua existência, que alguém já disse ser uma felicidade impressentida.”.

Pelo relato da tribuna da Câmara dos Deputados, vale registrar que o rio Paraíba, foi teve suas águas mais turvas após a construção da Barragem de Boqueirão, na década de 1950, dando a Cruz do Espírito Santo a tranquilidade que jamais suas barrentas espumas lhe bateriam as portas.

“Embalde.”, registra ele: “Apesar de domado pela monumental represa do Cariri o monstro aquático atacou mais uma vez e desta vez era uma vez Cruz do Espírito Santo.”, diz as Raimundo para anunciar a terceira cheia do rio que quase levou a cidade por completa.

“Foram as chuvas nunca dantes vistas, e que, ainda agora, inundam as glebas secas do Nordeste, devorando sua frágil economia e deixando o desabrigo mais de 1 milhão de pessoas. Não digo isso sem dó […] como quem conta uma história. Estou narrando uma história para registrar que ela morreu.  As águas chegaram e quando as águas passaram de Cruz do Espírito Santo só ficou a igreja… Todas as suas casas – eram quase mil casas! – foram destruídas. Todas as suas ruas – eram caminhos de trabalho de sonhos – foram soterradas. Nenhum sinal de vida. Em torno de tudo só o ar e imóvel, aquele trágico ar que pousa no silêncio das ruínas.”, descreve o parlamentar.

Dando seguimento a sua narrativa, de forma eloquente e chocante, Raymundo Asfora continua a descrever a situação da cidade: “As águas que trouxeram a Cruz do Espírito Santo, as águas revoltas do seu batismo novo, foram as mesmas águas que a crucificaram. Ao estrondo do rio, movido, talvez por um inconsciente atávico, o povo correu. Por esse milagre não houve vítimas humanas. Mas o resto foi devastação e extermínio. Seus moradores estão desgarrados em barracas, à vizinhança, armadas pela Sudene, e em asilos de João Pessoa. A capital fica 30 quilômetros do extinto burgo de humildes comerciantes e espoliados lavradores. Há quem insista que a cidade deve ser reconstruída no seu mesmo chão, para que a igreja, sobrevivente da catástrofe, não seja troféu santo relegado pelo seu povo. Não se abandona o santuário sem se perder um pouco da própria alma. A igreja, que existiu a rebelião das águas permanece no seu lugar. Assim dispôs a vontade de Deus. Mas que não submeta a coletividade a novos sacrifícios. Esse pode ter sido o último aviso da Providência Eterna, para quem se orienta por seus superiores de signos.”, finalizou.

As três ocorrências narradas de forma sucinta pelo parlamentar paraibano são capazes de rememorar a história de uma das mais antigas cidades do estado, que apesar de seus atropelos e desencontros vive um momento de glória ao celebrar seu aniversário.

Asfora deixou para a posteridade o registro de um tempo, da vida de uma comunidade, contribuindo assim para o conhecimento da história pelos que hoje vivem e constrói o presente que ficará como legado no passado e exemplo no futuro da heroica Cruz do Espírito Santo.

Da Redação 
Do ExpressoPB/Editoria REVISTA EXPRESSO

Comentários


SIGA-NOS

Todos os direitos reservados - Proibida reprodução total ou parcial deste site sem aviso prévio

Copyright © 2017 - ExpressoPB - CNPJ: 10.962.007/0001-48