terça, 17 de setembro de 2019
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O José Américo que eu recordo (1)



Publicado em sábado, maio 18, 2019 · Comentar 

Foi a primeira vez que ouvi falar em José Américo de Almeida, ou Zé Américo, como preferia o povão. Tinha sete anos de idade quando ele aportou na minha vila em campanha para o governo do estado. Meu pai, Arlindo Rodrigues Ramalho, fora candidato a vereador na primeira eleição pós redemocratização do País e era o representante local da União Democrática Nacional.  Reuniu muitos amigos, para, de longe, na calçada alta do Grupo Escolar, apreciar a visita do candidato à casa de José Amâncio Ramalho. Zé Américo fora colega do dono da casa, na turma de 1908 da Faculdade de Direito do Recife.Com ele estavam Rui Carneiro, candidato ao senado; Humberto Lucena, que pleiteava vaga na Assembleia Legislativa e Pedro Augusto de Almeida, eleito deputado na Constituinte de 1947 e candidato à reeleição. (Viria a falecer após ser diplomado para o exercício de novo mandato). Políticos dos municípios vizinhos também compunham a comitiva.

À época, José Américo renunciara à presidência da UDN e, como senador, disputava o cargo de governador da Paraíba. A Coligação Democrática Paraibana era resultado de um acordo entre Rui Carneiro, que representava o Partido Social Democrático-PSD, e José Américo. Muita gente da UDN preferiu acompanhar Zé Américo, a exemplo de Pedro de Almeida, Ivan Bichara e Nominando Diniz, para lembrar os mais conhecidos, todos dissidentes udenistas. Foi, portanto, com uma UDN dividida, que o então deputado Argemiro de Figueiredo enfrentou as urnas nas eleições de 1950. Para reforçar sua posição, contava o político campinense com o apoio ostensivo dos governos federal e estadual, este, chefiado por José Targino, em função da renúncia do governador Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e aquele, tendo como homem forte, justamente o candidato ao senado, José Pereira Lira, falando em nome do presidente Eurico Gaspar Dutra.

Para José Américo, foi a “campanha mais violenta que eu ganhei”. E conta: “Fiz a campanha mais vivo e vigoroso do que nunca. Varava o sertão com o sol batendo na cara, comendo poeira, como nos dias combativos de 1930. Havia conflitos. Derramou-se sangue nas ruas. Jogaram lama na minha comitiva, antes que eu passasse, para saltar do carro e desafiar esses selvagens. Nomearam, demitiram. Fizeram tudo isso e perderam feio”.
Na Vila de Borborema ninguém jogou lama ou apupou a comitiva do candidato. Meu pai, presente com os seus, mantinha a ordem e controlava os mais exaltados. A briga dele era local, deixasse a comitiva ir embora que a UDN soltar-se-ia. E assim foi feito. Bastou o último visitante tomar seu veículo e a ala feminina irrompeu cantando o hino oficial do argemirismo, que ainda tenho na memória, uma paródia com a música Taí, do grande Joubert de Carvalho, gravada por Carmem Miranda.

Minhas tias Helena de Moura Leite e Ivanilda Pinto Ramalho, que haviam levado seus alunos da escola de adultos para a rua, puxaram a música: “Taí, Argemiro tem que ser governador/com Renato seu maior batalhador/ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado, sim senhor!/ Pereira Lira vai para o senado/ que é homem forte e muito estimado/ na vibração da grande vitória/ exalta a glória do seu passado/ Taí, Argemiro tem que ser governador”. Não foi não, o bonde de Zé de Almeida não correu errado, mas célere em direção ao Palácio da Redenção. Perdeu Argemiro, seu vice Renato Ribeiro Coutinho e o “cachimbão” Pereira Lira, que chefiara a Casa Civil do govern o Dutra e foi por este contemplado, com uma cadeira no Tribunal de Contas da União. (CONTINUA)

Ramalho Leite
Jornalista/Ex-Deputado – Colunista

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