terça, 12 de novembro de 2019
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“Quem ama o feio …”



Publicado em quarta-feira, abril 3, 2019 · Comentar 

Dia desses tive acesso a um vídeo. Era Ariano Suassuna, escritor paraibano, autor da peça “O Auto da Compadecida”, que entrevistado sobre Deus, e o sentido da vida dizia acreditar em Deus “por que sem Deus tudo seria permitido” (Dostoievsky, Irmãos Karamazov); “com Deus somente o bem é permitido, como ente absoluto”; “Deus é real como limite do mal”; lembrei-me então de outra famosa frase do mesmo Dostoievsky “a beleza salvará o mundo”.

Vivemos tempos difíceis. A feiura espalha-se como erva daninha, vejam-se os embates do último pleito eleitoral; até Deus querem transformar em ídolo, a ser utilizado segundo as feiuras das ideologias e dos partidos; o Deus que sangrou por amor, o Deus que é amor (1Jo 4,8), o Deus que se fez grão que cai na terra e morre para produzir muito fruto (Jo 12,24), o Deus identificado com os desprezados deste mundo (Mt 25), e que diz Pai perdoai-lhes (Lc 23, 34), para muitos – desgraçadamente – tem sangue nos olhos e nas palavras.

E todavia somos um país cristão (somos?); os cristãos, somos seguidores do “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44(45), 3), e do Autor da beleza e da bondade das coisas – “e Deus viu que tudo era bom, muito bom”, belo, muito belo (Gn 1, 31). São Paulo, depois de experimentar a vida de Cristo diz: “é Cristo que vive em mim”; ser cristão é ser outro Cristo, fazer um caminho de fé com ele e comprometer-se com a exigência ajudar o mundo a encontrar Aquele que nos encontrou e nos criou belos e nos resgatou  para que a sua beleza refulja em nós.

Isso não é seguir a Beleza em abstrato, mas concretamente, e se comover com e por ela. Uma cena evangélica que plasma beleza: a parábola do bom samaritano que socorre o homem ferido à beira do caminho (Lc 10, 29-37), tornada protótipo para ações de beleza concreta também contemporaneamente:  Santa Madre Tereza de Calcutá cuidando dos desvalidos caídos nas margens dos caminhos, nas periferias, Beata Ir. Dulce, dita o “anjo bom da Bahia”.

Os santos e os poetas são especialistas em encontrar beleza. Chico Buarque diz que “os poetas como os cegos podem ver na escuridão”- isso é bonito; Dorival Caymmi: “o mar quando quebra na praia é bonito, é bonito…” ;  Dom Helder Câmara: “tudo tem beleza e santidade”; São Francisco de Assis no seu cântico das criaturas faz uma louvação a Deus Autor da beleza: “Louvado seja Deus na natureza, Mãe gloriosa e bela da Beleza…. louvado seja pela preciosa, bondosa água, irmã útil e bela, que brota humilde. É casta e se oferece a todo o que apetece o gosto ela”; São João Paulo II no Tríptico Romano falando do homem, de suas buscas: “fonte de bosque, desce ao ritmo de tumultuadas cascatas, quem pode desvendar o teu segredo? Somente Adão! Porém, subindo contra a corrente; Adão, único que na criação tem condição de maravilhar-se.

Causou-me impressão a maneira como Rubem Alves traça uma distinção entre moralidade e estética:

Dizem os religiosos que a existência humana se justifica moralmente. Deus deseja que sejamos bons. Discordo. A existência humana se justifica esteticamente. Somos destinados à beleza. Deus, Criador, buscou em primeiro lugar a beleza. O Paraíso é a consumação da beleza. Deus olhava para o jardim e se alegrava: era belo! No Paraíso não havia ética ou moral. Só havia estética. Os santos que a Igreja canonizou por causa da sua bondade eram movidos pelo desejo de que, por sua bondade, Deus os achasse belos. A beleza gera a bondade. Quando nos sentimos feios somos possuídos pela inveja e por desejos de vingança. Invejosos e vingadores são pessoas que sofrem por se sentirem feias. (Concerto para corpo e alma, pp 32-33)

Um cristão que não se dedicasse ao Belo, não se dedicaria a Deus e não seria cristão, faltaria-lhe essência: “A beleza consiste, pois na manifestação do todo no fragmento, onde aparece a essência” (Bruno Forte, a Porta da Beleza p. 15). Nossa missão-vocação passa por contemplar o Belo e mostrá-lo aos outros, para que fazendo a experiência de Deus se convertam, sejam envolvidos nos seus sentidos e na sua razão e possam cada vez mais viver de Deus.

A beleza extasia, põe-nos para fora de nós mesmos, nos faz experienciar a vida de um Outro e perceber os outros que não raro estão à nossa porta e batem (Ap. 3, 20) esperando participar da festa (o rico epulão não será feliz fazendo festa sozinho (Lc 16, 19-31).

Em tempos feios e de feiuras lembremo-nos que “os que estão em Cristo são criaturas novas” (2Cor 5,1), “os que foram batizados em Cristo, foram revestidos de Cristo”(Gl 3, 27) ou seja novos e revestidos “daquele que não cometeu pecado, que não tinha mentira em sua boca, e não pagava o mal com o mal. (1Pd 2,21s). A beleza não é alienação, mas é esperança, alegria; a beleza é Páscoa, é vida que vence a morte.

Pe. Elias Sales de Souza.
Diocese de Guarabira

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