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José Lacerda Neto: Um recordista de mandatos



Publicado em terça-feira, julho 31, 2018 · Comentar 

O historiador Marconi Vieira pesquisou a vida do político José Lacerda Neto desde suas origens. Foi buscar na Península Ibérica do varão d.Fernando de La Cerda, um descendente do Rei Afonso X, o sangue azul desse nobre paraibano nascido em São José de Piranhas. Chegados ao Brasil, esses lacerdas foram se subdividindo em outros grupos familiares tais como os Pereira de Lacerda, os Lacerda Werneck, onde deve estar inserido o polemista político brasileiro Carlos Werneck de Lacerda, os Paiva Lacerda, os Lacerda Soares e outros ramos que batizaram vários nobres, entre os quais, o Barão de Lacerda Paim, fixado na Bahia. Em Salvador, batizaram até o elevador Lacerda. Do Rio Grande do Sul ao Ceará os Lacerda se espalharam e pelo Ceará chegaram a São José de Piranhas, sem esquecer que outros, como os Frutado de Lacerda, Leite Figueiredo, Leite Diniz, Cavalcanti La cerda preferiram Conceição, Campina Grande, Piancó ou Bonito de Santa Fé. Nessas andanças pelo passado, Marconi deparou-se com um famoso político do Piancó, o coronel Zuza Lacerda, representante daquela região como deputado, e que, por certo, inspiraria, no futuro, seu parente José Lacerda Neto- o homem que, até o presente, ocupou o maior número de mandatos na história da Paraíba.

A arvore genealógica dos Lacerda compõe-se de muitos galhos, até chegar ao famoso combatente Antônio Brabo, temido pelos bandos de cangaceiros que infestavam o sertão e, registrado com o nome de Antônio Furtado de Lacerda. Este viria ser bisavô do eterno deputado José Lacerda Neto, cujo nome, obviamente, homenageia seu avô José Lacerda Leite. Mantivesse o nome original do homenageado, eu teria cobrado há mais tempo o parentesco… Todo esse preambulo que faço, foi resumido pelo poeta popular Diá de Jatobá: Zé Lacerda vem da nobreza/de Castela e Aragão/Seu bisavô Antônio Brabo/Pegava cobra com a mão/Era homem respeitado/No presente e no passado/pelas bandas do sertão/.

Nascido em uma família de políticos, José Lacerda Neto tem no seu avô José Lacerda Leite e no seu pai Joaquim Lacerda Leite a herança eleitoral que o colocou aos 27 anos de idade, por conta de um acordo político entre a sua UDN e o PSD dos Lucena, na prefeitura de São José de Piranhas a partir de 1959. Foi o alicerce para a sua caminhada no exercício de mandatos a nível estadual.

Meus senhores:

Bastaria o prefácio do historiador José Octavio de Arruda Melo para coroar a excelência desse “José Lacerda Neto- Um recordista de mandatos”.  Octavio descobre no trabalho, uma trajetória nova, um caminho que evitasse o tédio, levando o autor a concentrar-se na vida política do biografado e a afastar-se das “baboseiras de batizado e primeira comunhão”. Para ele, a obra de Marconi Vieira se preocupa em fixar “o tempo de José Lacerda Neto e o espaço de sua atuação”. O prefácio de José Octavio dispensa qualquer complemento. Todavia, é da tradição nas solenidades de lançamento de uma obra, uma apr esentação oral. Eis por que estou aqui, atendendo ao chamamento do autor e do personagem do livro.

Advirto e peço paciência às senhoras e senhores: Não pretendo ingressar na intimidade destas páginas. Prefiro transferir aos que se deslocaram para esse evento, algumas passagens da minha convivência com o deputado José Lacerda Neto e narrar algumas inconfidências que o livro evitou. Ao chegar à Assembleia em 1975 já encontrei Zé Lacerda, como era carinhosamente chamado por todos. Vinha de vários mandatos e eu o conhecia desde o prédio antigo da Praça Pedro Américo, ele deputado e eu servidor da Casa, ouvindo os discursos parlamentares e sonhando um dia poder também ocupar aquela tribuna.

Eram tempos difíceis. Os mandatos eram vigiados e patrulhados. Zé Lacerda já escapara do seu envolvimento com a Frente Parlamentar Nacionalista, cujo manifesto assinara em 1963 juntamente com Assis Lemos, Figueiredo Agra, José Lira, José Maranhão, Romeu Abrantes, Sóstenes Pedro, Francisco Souto e Ronaldo Cunha Lima. Enquadrado na lei de Segurança Nacional, Lacerda foi absolvido pela Justiça Militar alguns anos depois. Os militares não devem ter acreditado naqueles arroubos esquerdistas de um socialista nascido na UDN. Outros, porém, perderam seus mandatos. Um detalhe: um habeas-corpus preventivo em favor de Zé Lacerda foi impetrado pelo meu sogro, advogado Jose Antônio Aragão.

Diz o ditado popular que gato escaldado tem medo de agua fria… Essa lição não serviu para José Lacerda, oriundo do sitio Caldeirão do lendário Antônio Brabo. Alguns anos depois, quando o caldeirão dos quartéis costumava cozinhar as maiores lideranças deste País, lá estava de novo Zé Lacerda contestando o pensamento da caserna. Desta feita, me juntei a ele, Edvaldo Motta, Waldir Lima, Américo Maia, Tarciso Telino, Chico Soares, Manoel Gaudêncio e formamos um bloco de deputados estaduais dispostos a ir às últimas consequências para colocar Antônio Mariz no Palácio da Redenção. A ameaça de cassação de mandatos e suspensão dos direitos políticos pairava sob a cabeça de Mariz, mas, dificilmente, algum rebelado seria poupado. Perdemos na convenção da ARENA e c hegamos até lá vencendo pressões e ameaças do poder ilimitado que se garantia nas armas.

Na batalha política estivemos mais tempo juntos do que em campos opostos. Mas mantivemos sempre a cordialidade indispensável à convivência parlamentar. Deixem que eu confesse um pecado: está no livro o requerimento de Zé Lacerda pedindo uma agencia do Banco do Nordeste para São José de Piranhas. Fez mais: convocou uma sessão especial para homenagear os 25 anos do Banco do Nordeste e trouxe o presidente Nilson Holanda para receber, ao vivo, as homenagens da Paraíba. Eu participei de tudo isso, mas, em segredo, mandei fazer um projeto justificando as razoes econômicas e geográficas que indicavam Solânea para essa nova agencia que se anunciava. Por razões técnicas, ganhei a parada.

Mas adiante, pude compensar essa falta cometida. Foram criados vários cargos de procurador da Assembleia, naquele tempo, cargo isolado e de provimento efetivo. O presidente Evaldo Gonçalves gostaria de contemplar alguns deputados que, deixando o mandato, não teriam meios de sobreviver. Zé Lacerda era um deles. A nomeação dependia da minha assinatura e eu exigi a renúncia dos três deputados contemplados. Não consta do livro, mas Zé Lacerda, faltando trinta dias para terminar o seu mandato que se iniciara em 1982, renunciou para permitir sua nomeação para o cargo de Procurador. Anos antes, renunciara ao cargo de procurador autárquico para permanecer deputado.

Tudo isso é história. Mas por trás da história existe o folclore. E não há político que fique longe da verve popular. Eu mesmo cheguei a publicar um livro sob o título, O Poder de Bom Humor, contando as peripécias de muitos políticos com os quais convivi. Zé Lacerda não poderia escapar das más línguas. Lembro aqui sua disputa com o deputado Assis Camelo pelos votos do Vale do Mamanguape. Zé Lacerda indicou um candidato a diretor do colégio estadual de Rio Tinto. Assis Camelo contestou e começou a arrolar defeitos do indicado. Foram ao governador. Ivan Bichara era de um humor excepcional. Ouviu a ladainha dos dois e decidiu nomear o candidato lacerdista. Assis, inconformado, rebateu: – Mas Governador, esse professor, além de tudo, bate na mulher!. Ivan respondeu: – Esse tem mais coragem do que nós… E nomeou o diretor.

Contam que um eleitor procurou Zé Lacerda em casa. Deveria ser uma visita indesejada e Zé mandou dizer que estava viajando. O eleitor, de longe, viu a cabeça de Zé Lacerda através da vidraça. Antes de sair, disse para a empregada: – Diga ao deputado que da próxima vez que viajar, leve a cabeça…

Cumpriu onze mandatos de deputado mas não chegou à presidência da Assembleia, apesar de exercê-la, eventualmente, inúmeras vezes. Não lhe faltava mérito, mas talvez faltasse a vaidade do poder. Na sua última candidatura a presidente, dizem que chegou a ferir os joelhos comparecendo às novenas da deputada Terezinha Pessoa. Invocava os santos, mas o que queria mesmo era o voto da deputada. Perdeu esse voto e a eleição para Carlos Dunga.

Deliciei-me com o livro de Marconi Vieira. Li de um fôlego só. Encontrei-me nele em várias ocasiões, inclusive em fotografias. Lendo a obra, você pode concluir por que os paraibanos do sertão e do litoral mantiveram Zé Lacerda, TODO  TEMPO, na vida pública. (APRESENTAÇÃO DO LIVRO BIOGRÁFICO DE JOSE LACERDA NETO).

Ramalho Leite
Jornalista/Ex-Deputado – Colunista

 

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