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O Gosto do Bem

Publicado em sábado, dezembro 30, 2017 · Comentar 

Quem nunca ouviu cantar a música que se despede do ano velho e saúda o ano novo?  “Adeus ano velho feliz ano novo”, bonita, sim? Sobretudo quando começa o anúncio dos desejos e augúrios para o ano que estar por vir, são coisas realmente positivas: “Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”.

É tradicional! As lojas, os programas de rádio e TV, os comerciais, são pródigos em explorar música tão encantadora. É quase uma acalanto para crianças e gente grande.

Já imaginou a força que ela tem? Nunca soube que alguém tivesse comprado um disco, CD, ou outra mídia só para ouvir em casa essa beleza de música, e no entanto todos sabemos cantá-la decor.

Em criança, no tempo em que tinha animador de Missa, antes da meia noite e depois de uma dramatização (o ano velho se desculpando dos males que ele trouxera, já moribundo e, o novo fazendo suas promessas de felicidades e realizações) então, se cantava a música com o cuidado de cristianizá-la, no final se dizia: “…saúde pro povo de Deus.” 

A sua simplicidade melódica, quase ingênua e inocente, tem um propósito de apelo ao consumo como sinônimo de felicidade que se impregna através do ouvido na nossa memória que dela não sai nunca mais. Entrou, por meio, dessa terna melodia no inconsciente coletivo que a felicidade nossa depende da satisfação de uma única dimensão do nosso ser e estar no mundo, a dimensão material.

Mas o homem é muito mais do que “o cobre”, e mais do que a saúde, a felicidade, “a vida de um homem não consiste na abundancia dos bens” (Lc 12,15).

No chamado Sermão da Montanha (Mt 5) Jesus oferece a seus seguidores e à humanidade inteira o programa de felicidade. Esse programa de felicidade, de bem-aventurança evangélica só pode ser expresso como paradoxo, pois o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3), O Bem-aventurado, o Bem-amado, dá ao mundo esta proposta como “sinal de contradição”: quer ter uma vida feliz? Seja pobre, purifique seu olhar, seja manso, seja operador de paz, não se esqueça da justiça …

Desconfio dos cristãos que se dizem decididos e dedicados a viver felizes prescindindo do itinerário proposto por Jesus e da bem-aventurança mais difícil: não se envergonhar de Jesus (Lc 12,9).

Há pessoas que na ânsia de felicidade se utilizam de todos os meios; se os meios são contrários à bondade, à beleza, à justiça são inaceitáveis. A felicidade para o ser humano precisa passar pelo crivo da moralidade e da ética, e muito mais para os que usamos o nome de cristãos.

Nas veredas da vida podemos perseguir a felicidade nos comprometendo com o evangelho da vida e da alegria. Um velho padre italiano, morto há poucos anos, me causou impressão ao falar da vida e da maravilha que ele tinha diante do viver. Ersílio Tonini (tornou-se cardial) filho de camponeses, quando tinha 04 anos de idade recebeu uma tarefa de felicidade; sua mãe lhe disse: “Ersílio, no dia em que nasceste teu pai e eu fizemos festa por ti, daqui para frente tu mesmo deves fazer festa pela tua vida”; e o velho padre que morreu com 99 anos dizia – “Toda manhã me levanto com o desejo de gritar: obrigado, eu estou aqui”. Outra coisa importantíssima que ele aprendeu foi o compromisso em fazer o bem aos outros. Quando ele tinha seis anos recebeu a graça da vocação num contexto de amor em família e de caridade para com um necessitado. Disse: “eu tinha seis anos, chegou um pobre em nossa casa, e minha mãe mandou a mim e meus irmãos que servíssemos sopa, vinho e o pedaço de pão e, eu o menor, ao entregar o pão ao mendigo ele me abençoou e eu fiquei tão feliz que voltando disse ao meu pai: “pai custa caro para ser um padre?” e, ainda “eu provei o gosto pelo bem” (em La storia sei tu).

A felicidade que almejamos para o ano vindouro e para a vida toda, passa pela nossa disponibilidade para a gratuidade e abertura à providência de Deus, pelo desenvolvimento da nossa humanidade (escutamos pessoas dizerem: eu quero ser advogado, padre, médico, engenheiro … e todavia é preciso dizer eu quero ser humanamente desenvolvido, para além de todas as possibilidades que eu tenho); passa pelo querer bem, pela amizade; passa por uma consciência que sabe não poder ser feliz prescindindo da felicidade dos demais.

A vida cristã é feliz na medida em que o crente vive a vida, o sonho, o projeto de um Outro: “o Corpo que era dele eu comerei agora, o Sangue que era dele meu será. A Vida que era dele eu viverei agora o Sonho que era dele meu será”…. quem não comer… quem não beber , não viverá.”

E Deus nos abençoe e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Sl 67).

Feliz ano novo!

 

Padre Elias Sales de Souza
Pároco de Cuitegi-PB

 

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