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Perigo dos Fakes: Notícias falsas põem vidas em risco


Banner da campanha do Governo do Maranhão contra a prática de fakes

RIO — O alerta chegou via WhatsApp, quando Leandro Santos de Paula voltava de ônibus do curso pré-vestibular que faz na Fiocruz, para sua casa, em Manguinhos. Amigos avisaram que sua imagem vinha circulando em redes sociais, ao lado da informação de que ele seria agente penitenciário em Bangu 8, onde o ex-governador Sérgio Cabral está preso. Como Leandro e Cabral já haviam se conhecido, oito anos antes, o sangue da internet ferveu. Em 2009, o ex-governador chamara o então adolescente de “otário”, ao ser questionado sobre obras do governo e a ação policial em sua rua. O próprio Leandro gravou a grosseria.

O vídeo de 2009 e a notícia de 2017 viralizaram. Sites publicaram a suposta reviravolta na relação entre Leandro e Cabral, e os internautas reproduziram a informação com gosto. Era a vingança que todos queriam contra o ex-governador, mas também o início do tormento para mais uma vítima dos boatos de internet — as fake news, como são conhecidas no mundo as notícias falsas cuja repercussão tem o potencial de influenciar eleições ou destruir reputações.

Brincadeira pôs vida de Leandro em risco

Aos 22 anos, Leandro é um rapaz negro, sereno, de gestos tranquilos. Tanto na aparência, quanto na aptidão, lembra o Buscapé, do filme “Cidade de Deus”. Ele mora na mesma casa de 2009, com dois quartos e uma laje, dividida hoje com sua mãe, três irmãos, um sobrinho e um cunhado. Leandro não se recorda do pai, morto atropelado por um trem quando ainda era um menino de jardim de infância. Nos últimos dois anos, tentou vestibular para Comunicação, mas não passou. Tentará de novo este ano, atrás de seu sonho de trabalhar com vídeo e fotografia.

Leandro nunca quis ser agente penitenciário, nem poderia. Ele próprio explica: “Para fazer alguma coisa desse tipo, teria que me mudar”. O entorno de Manguinhos é um dos mais violentos do Rio, pela ação de traficantes. Em 2016, a área, que nas estatísticas da polícia engloba ainda Benfica, Bonsucesso, Higienópolis, Maré e Ramos, teve 74 homicídios dolosos registrados. Na última quinta-feira, na mesma rua em que Leandro fez a gravação com Cabral em 2009, um camburão da PM, com bicos de fuzis para fora da janela, passou três vezes em baixa velocidade num período de duas horas.

A notícia de que o jovem iria trabalhar em Bangu 8 começou a se espalhar no fim de janeiro. Apenas no início de março, sites de jornais e revistas publicaram desmentidos. Em todo esse tempo, ninguém procurou Leandro para perguntar se era ou não verdade.

— Onde eu moro, você não pode ser policial ou agente penitenciário. Então meus amigos e vizinhos começaram a me ligar com medo de eu morrer sem ter feito nada. O risco era algum bandido achar que era verdade — conta Leandro. — Os sites nem sabiam meu nome. Eles só usaram o vídeo que eu fiz em 2009 para ter uma notícia relacionada à Lava-Jato.

O boato sobre Leandro foi lançado como uma sátira por um site assumidamente de humor, o “Joselito Müller”, no fim de novembro. Assim como fazem seus pares “Sensacionalista” e “Piauí Herald”, a lógica do “Joselito” é partir de acontecimentos reais para fazer piadas. O site foi criado por Emanuel Grilo, advogado de 36 anos, paraense, que cresceu na Paraíba e que desde os 20 mora em Natal. O pseudônimo tem origem na junção de duas referências pop, o Joselito Sem Noção, personagem do programa de TV “Hermes e Renato”; e o cantor brega piauiense Roberto Müller, apelidado por Chacrinha como “Pingo de Ouro do Brasil”.

Grilo bolou a brincadeira com o suposto carcereiro de Cabral como uma “ironia do destino” para “uma história já surreal de um governador que construiu seu próprio presídio”. Na publicação, ele não utilizou o nome verdadeiro de Leandro (chamou de Sergio Sandro Sorayo Sarmento da Silva Souza Seabra) e narrou a história de um jeito jocoso. A publicação tem hoje pouco mais de 10 mil visualizações, um número baixo perto do que o “Joselito” já alcançou. Um post de 2015, intitulado “Suzane Richtofen é recepcionada por ativistas dos direitos humanos ao sair da prisão” tem mais 447 mil.

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O dono do “Joselito” não sabia que a repercussão da brincadeira pôs Leandro em risco, até esta entrevista:

— Indiretamente eu tenho que admitir que sim, tenho responsabilidade. Mas a notícia que publiquei era sem noção, não tinha como tomar como verdade. Eu acho que a responsabilidade maior é de quem pegou aquilo e publicou como notícia — diz Grilo, que lançará, em novembro, um livro pela editora Record.

A piada de Grilo circulou na internet por dois meses antes de começarem a acreditar nela. Leandro gravou, em 10 de fevereiro, um vídeo em sua página de Facebook como esclarecimento, com a hashtag #NAOSOUOQUEPENSAM.

O desmentido, contudo, nunca tem 100% de efeito. Notícias se espalham muito rapidamente na internet, e até hoje há gente jurando por todos os deuses que Leandro é carcereiro do Cabral. A praga é comum: boatos são repassados como verdades indiscriminadamente. Os casos de maior vulto envolvem políticos — a última eleição presidencial americana foi um espaço prolífico para a prática —, mas é no dia a dia de pessoas como Leandro que o descuido, a irresponsabilidade ou a má-fé costumam ter efeitos mais nocivos.

— A grande dificuldade é identificar de onde vêm esses boatos. Muitos dos sites que veiculam essas histórias estão hospedados fora do Brasil, às vezes em nome de laranjas. São sites que buscam ganhar dinheiro com a publicidade gerada pelo conteúdo falso — afirma Jonatas Lucena, advogado especializado em direito digital. — Na prática, é difícil tirar essas coisas do ar. Quem tem mais dinheiro acaba contratando empresas que fazem um serviço de hacker para remover conteúdo da rede.

Da Redação 
Com O Globo

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