domingo, 16 de dezembro de 2018
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Princesa vista lá fora



Publicado em sexta-feira, janeiro 20, 2017 · Comentar 

O que já se escreveu sobre a rebeldia do deputado José Pereira contra o governo de João Pessoa, daria uma biblioteca exclusiva sobre o assunto. Não terei a veleidade de romper com os liames que vinculam o historiador aos fatos, até por que, nessa história, nunca houve imparcialidade. Os escritos levam os resquícios da paixão vivida à época e, poucos se deram ao trabalho de narrar aqueles  dias tormentosos fugindo da visão dicotômica: contra ou a favor de Zé Pereira ou  de João Pessoa. O paraibano acostumou-se com  as versões que, ao longo desses quase noventa anos, passaram por suas mãos e alimentaram suas mentes. Nos nossos  dias, não é incomum encontrar-se um descendente de perrepista ou de liberal, ainda alimentando o ódio do passado. O que despertou minha curiosidade, para voltar ao assunto, foi a visão que lá fora, outros brasileiros tiveram do cenário aqui vivenciado ou a versão que chegava ao restante do país, através da imprensa. Tomei como paradigma o Rio de Janeiro e, como veículo, o Diário de Notícias, jornal  editado na capital da República.

Entre os dias 08 e 13 de julho de 1930, enquanto a manchete daquele periódico dedicava-se a um “Concurso Internacional de Belleza” e à escolha da Miss Brasil, no miolo, uma coluna era mantida sob o titulo: “A Luta Armada na Parahyba”.  Os subtítulos eram reveladores- “ Os últimos momentos de Princeza – O governo exige a rendição”.Eram as informações do secretario de segurança, José Américo de Almeida, transmitidas ao Presidente João Pessoa e chegando ao conhecimento dos cariocas.

Parahyba-7- O Sr.João Pessoa recebeu o seguinte rádio: Piancó- 4 – “ Os cangaceiros foram surpreendidos na fazenda do Oriente, situada no município de Pombal, pela coluna dos tenentes Manoel Benício e Marques Filho, debandando nos primeiros tiros dos atacantes.Os bandidos recuaram, continuando as forças ao encalço dos que fugiam.Essas correrias visam especialmente o roubo,como aconteceu com a fazenda do coronel João Alves, neste Município, que foi despojado de seus bens, no valor de cerca de 80:000$000. O sub-delegado de Malta, que foi feito prisioneiro e retido como refém, acaba de ser posto em liberdade mediante a entrega de avultada quantia aos bandidos.O  povo do vale do rio  Piancó tem estado admirável. Chegam diariamente dezenas de pessoas, de logares distantes, pedindo armas para a defesa da nossa causa-José Américo de Almeida”(Diário de Noticias, de 08 de julho de 1930,pag 3).O secretário de segurança, aquartelado com sua milícia na cidade de Piancó, adiantaria ao Presidente que “as tropas estão impacientes para avançar e acabar de vez com a revolta de Princeza”.

As informações ufanista do graduado auxiliar de João Pessoa eram, contudo, contestadas por outros informantes que conseguiam chegar às páginas do Diário, através de correspondentes do Recife: “José Pereira Amplia seu Raio de Ação”era a notícia. “Recife-7- Noticiam de Princeza que a gente de José Pereira amplia seu raio de ação por outros municípios entre os quais o de Piancó, Pombal, Patos, Souza,Conceição, Misericórdia,São José de Piranhas,São João do Rio do Peixe,Cajazeiras e Teixeira, onde a população se mostra preocupada com o rumo dos acontecimentos”.

O  leitor carioca, lendo os textos que as linotipos compunham, a quente, mas servidos com a frieza de noticiário isento, não firmaria um juízo perfeito dos fatos que se desenrolavam nas caatingas do interior da Paraíba. Cada facção fazia divulgar sua própria versão. Faltavam poucos dias para o desfecho trágico da Confeitaria Gloria que encerrou a trajetória de João Pessoa e calou as armas de Princesa. (Mantive nas transcrições a grafia da época. CONTINUA) 

Ramalho Leite
Jornalista/Ex-Deputado – Colunista

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