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Uma carta ao Imperador


Ao pesquisar a origem dos Ramalho no brejo deparei-me com a figura do padre José Euphrosino Maria Ramalho, nascido no vale do Piancó mas vigário colado de Bananeiras até o inicio do século XX. Sob a jurisdição da Freguesia de Bananeiras estava incluída a Casa de Caridade de Santa Fé, localizada à chegada de Arara, hoje território de Solânea. A dedicação do pároco ao empreendimento do padre-mestre Ibiapina, levou-o a deixar aos próximos seu desejo de ser sepultado ao lado do mestre e, assim foi feito. Antes, porém, revelou ao Imperador Pedro II sua preocupação com as dificuldades financeiras do empreendimento social e rogou de sua majestade ajuda financeira para a manutenção do lar das ór fãs.Sua carta ao Imperador merece ser transcrita:

A S. M. Imperador, Senhor: O padre José Euphrosino Maria Ramalho, párocho collado da egreja de Nossa Senhora do Livramento de Bananeiras, director e encarregado da casa de caridade ou recolhimento de Santa Fé, fundada pelo benemérito missionário apostólico Rvm padre Dr.José Antonio de Maria Ibiapina, em a sua referida parochia, bem como da de Cabaceiras, pelo mesmo Rvm missionário fundada na Villa e freguezia deste nome,ambas na província  da Parahyba do Norte,profundamente compenetrado da situação afflictiva, em que actualmente permanecem as órphãs na sobreditas casas recolhidas, e cujo numero attinge a cento e  sessenta na primeira mencionada e a sessenta na segunda as quaes inevitavelmente succumbirão pelo rigores da fome, se uma mão bemfazeja não lhes vierem em auxilio;por isso que por sua natural condicção e educação não podem absolutamente concorrer aos logares em que são dispensados soccorros públicos, vem com o mais respeitoso acatamento, em nome da pátria, que V.M I. tanto estremece como em nome da caridade, que tão felizmente enobrece o magnânimo coração de V.M.I. pedir que se digne em sua alta munificência imperial arbitrar mensalmente uma pensão pecuniária para as referidas casas ou recolhimentos, até que melhorem os tempos, afim de serem soccorridas tão desprotegidas creaturas, as quaes, falhando as contribuiç&otild e;es que lhes dispensam os fies, em virtude da desastrada crise que a todos affecta,arrostam o mais imminente perigo, não só proveniente de fome e nudez, como por falta d´água potável que para o recolhimento de Santa Fé em Bananeiras, é procurada na distancia de três léguas, sem que tenha recurso para acquisição e condução desse elemento tão indispensável.

Senhor, o humilde e obscuro párocho de Bananeiras recorrendo à magnanimidade de V.M.I. em favor de  suas infelizes jurisdiccionadas, victimas do mais desastrado e atterrador flagello, nutre a mais doce e a mais lisongeira esperança de ser attendido;pelo muito que respeitosamente ousa declinar nesta humilde supplica os nomes das respectivas superioras encarregadas pelo benemérito dr.Ibiapina na direção interna e da economia dos ditos estabelecimentos pios, as quaes V.M.I. dignar-se-há mandar, com a presteza que o caso exige, endereçar o que houver por bem arbitrar:D.Felismina da Rocha Ibiapina, superiora do recolhimnento de Santa F&eacut e; em Bananeiras ; D. Veneranda de S.José Ibiapina, superiora do recolhimnento de Cabaceiras.

Assim, P.E. deferimento,Vigário José Euphosino de Maria Ramalho.

Padre Euphosino foi deputado provincial em 1884-1886 mas seu nome foi grafado como padre José Euphosino Maria de Carvalho, no livro de Celso Mariz sobre o legislativo paraibano. Um equívoco que Deudedith Leitão não corrigiu ao continuar a história até os anos 1980. A petição ao Imperador está publicada na edição de domingo, dia 1º. de setembro de 1889,  do jornal católico O Apóstolo, editado no Rio de Janeiro.

Não posso dizer se o padre de Bananeiras foi atendido. Creio que não.Para viajar à Parahyba do Norte consta que  D.Pedro II teria tomado  um empréstimo ao cofre da Imperatriz, mas assim mesmo, fez doação de algum à Santa Casa da Misericórdia. Destinou também um dinheiro para a remoção do Matadouro Publico que achou em lugar impróprio. Não preciso dizer que todo esse dinheiro foi desviado para despesas mais urgentes. Esse vício vem de longe…

P.S A citada Dona Felismina da Rocha Ibiapina, chamava-se na verdade Felismina Maria dos Santos Peregrino e vem a ser filha do Barão de Araruna.

Ramalho Leite
Jornalista/Ex-Deputado – Colunista

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